r.izze.nhas

Resenhas e aleatoriedades literárias.

Menu Close

Meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout

meu-nome-e-lucy-bartonLucy Barton tem complicações durante uma cirurgia e tem que passar alguns dias em observação, internada num hospital em Nova York. Da janela ela observa o edifício Chrysler, imagem constante em suas noites insones e solitárias, em que pensa nas duas filhas pequenas – se sentem sua falta, se seu marido está dando conta de cuidar das duas – e no trabalho deixado de lado momentaneamente por conta da saúde. Lucy Barton é escritora. No momento da cirurgia e da internação, está publicando seus primeiros textos em revistas renomadas. Mas a Lucy Barton que conta esta história já tem uma obra consolidada, e o que ela pretende aqui é relembrar cinco dias específicos de sua internação que acabou durando bem mais do que ela previa: os cinco dias em que recebeu a visita de sua mãe. Este é Meu nome é Lucy Barton, livro de Elizabeth Strout que esteve entre os indicados do Man Booker Prize deste ano (tradução de Sara Grünhagen), mas não chegou a ser finalista do prêmio.

Há anos Lucy não via sua mãe. Sua presença no quarto do hospital foi uma feliz surpresa, mas que também amedrontadora. Ela não fazia ideia do motivo da mãe estar ali (depois soube que seu marido ligou para a sogra e pediu que fosse visitá-la, pois ele tinha pavor de hospitais), e nem o que a mãe pensava do lugar onde estava, da vida que a filha vinha levando tão longe dela. Lucy e sua mãe são bem diferentes, e apesar dela notar algo familiar, uma sensação aconchegante vinda do passado, ela também sente que não está conectada com a mãe, assim como nunca se conectou muito à família após deixar a cidadezinha do interior onde cresceu. E assim a Lucy dos dias atuais explica essa relação não conflituosa, mas complicada, entre mãe e filha, em que constrói um relato sobre identidade, seu lugar no mundo e a importância das pessoas.

Read more

Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara

uma-vida-pequena-de-hanya-yanagiharaNão vai ser fácil falar de Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara (tradução de Roberto Muggiati). Não é aquela velha dificuldade de falar de algo que você gostou muito sem saber direito o motivo de ter gostado. Eu sei bem porque gostei de Uma vida pequena. Mas é que esse romance foi difícil de terminar por conta do quanto Hanya te faz se apegar aos personagens e por todo o sofrimento que o livro contém.

Uma vida pequena conta a história de vida de quatro amigos que se conheceram na faculdade. Mas o romance começa depois disso: quando estão com vinte e cinco, vinte seis anos, todos voltam para a cidade de Nova York em busca de emprego ou fama. JB é um pintor e artista plástico, mantém um emprego de recepcionista numa agência porque espera fazer contatos para ser exposto numa galeria. Malcolm é arquiteto, está engatinhando em seus primeiros projetos. Tanto Malcolm quanto JB possuem famílias que os mantém bem financeiramente, e suas preocupações não são tanto com dinheiro, mas querem se destacar no que fazem.

Read more

A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulherPense nos relatos de guerra, de que forma eles são feitos. Há a história de quem ganha, cheia de atos heroicos e grandiosidade. Há a de quem perde, essa talvez menos contada, provavelmente porque desperta vergonha, vulnerabilidade. Mas uma coisa que essas histórias têm em comum é a sua fonte: geralmente narradas por homens, construídas por eles. Em filmes, livros, séries, quando a guerra é o tema são os homens os personagens principais. As mulheres têm o papel de cuidar dos homens, ser suas enfermeiras, suas amantes, aquelas que seguram as pontas em casa e esperam pela sua volta. Mas há um papel que as mulheres tiveram na Segunda Guerra Mundial que, perto do tanto de histórias que temos de homens lutando, é praticamente esquecida. A história das mulheres que realmente combateram, pegaram em armas e estiveram no campo de batalha. Essa é a história que Svetlana Aleksiévitch quer contar.

Em A guerra não tem rosto de mulher (tradução de Cecília Rosas), a jornalista bielorrussa entrevista centenas de mulheres que combateram pelo exército soviético ou em grupos civis. São franco-atiradoras, tanquistas, médicas, enfermeiras, lavadeiras, pilotos, enfim, mulheres que lutaram em todas as frentes, que assumiram o posto dos homens e fizeram o trabalho tão bem (ou até melhor) do que eles. A motivação de Aleksiévitch, como ela diz na introdução, é mostrar como o relato das mulheres difere do dos homens. Ela quer mostrar uma guerra que não foi feita de heroísmo, que não teve, no final, vencedores ou perdedores. Ela quer uma guerra com sentimentos, com as dores e as (poucas) alegrias que o conflito guarda. É dar às mulheres a chance de contar o que elas nunca contaram.

Read more

Dias de abandono, de Elena Ferrante

dias-de-abandonoOlga é abandonada por Mario após quinze anos de casamento. Eles vivem num apartamento em Turim, na Itália. Ela, escritora, deixou o trabalho de lado para cuidar da casa e dos filhos, Gianni e Ilaria. Depois de um almoço em que tudo aparentava estar tranquilo, Mario lhe comunica calmamente que está indo embora. Olga fica sozinha com as crianças, tentando entender o que aconteceu, tentando não ser consumida pelo rancor do abandono.

Este é o enredo do curto romance de Elena Ferrante, Dias de abandono (tradução de Francesca Cricelli). A autora da série Napolitana mantém neste livro a mesma intensidade narrativa que encontramos em A amiga genial e História do novo sobrenome. Quem nos conta todo o drama da separação é a própria Olga, que aproxima o leitor de seus sentimentos e medos.

Read more

A história dos meus dentes, de Valeria Luiselli

0c07f0b1-e096-431e-b570-dce06c9ea491Uma fábrica de sucos do México convidou a autora Valeria Luiselli para escrever sobre a organização do catálogo de uma galeria. Essa fábrica patrocina e mantém uma das maiores coleções de arte do país, e o convite fazia parte de mais uma obra artística. Valeria aceitou a encomenda, porém não queria escrever sobre esse tema específico. Ela se interessou mais pelos operários da fábrica. E assim começou a escrever capítulos curtos que, semanalmente, eram enviados de Nova York, onde vive, para o México. O texto era impresso em pequenos caderninhos e distribuídos entre os operários que liam e, uma vez por semana, se reuniam para discutir o texto. Os encontros eram gravados e os comentários eram, então, enviados de volta para Valeria nos EUA. Ela fazia alterações conforme as sugestões ou críticas dos funcionários da fábrica de sucos. Assim nasceu A história dos meus dentes (tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman).

Gustavo Sánchez Sánchez, mais conhecido como Estrada, é o melhor leiloeiro do mundo (mas só ele sabe disso), e quer escrever a sua “autobiografia dental”. Antes de ser leiloeiro, foi segurança de uma fábrica de sucos na Cidade do México, fábrica que patrocinava e mantinha uma grande galeria de arte. Galeria que ele nunca conheceu por dentro, pois não saía dos portões da fábrica. Depois de passar por outros cargos lá dentro, fazer cursos e mais cursos, deixar o emprego, se casar e ter um filho, Estrada vira leiloeiro.

Read more

Cidade em chamas, de Garth Risk Hallberg

cidade-em-chamasCidade em chamas é um livro gigante, mas você não precisa ter medo dele pelo tamanho. Essa é a primeira coisa que falo para quem diz que ainda está meio receoso de dedicar tempo (e força, pois pesado) no primeiro romance de Garth Risk Hallberg. Não, Cidade em chamas não é nenhum labirinto literário quase que incompreensível que vai te fazer arrancar os cabelos – tipo Ulysses e Graça infinita, já que estamos falando de catataus e traduções do Caetano Galindo, que também cuidou dessa aqui. Cidade em chamas é, na verdade, uma história bem tranquila de ler. E talvez por isso muitos tenham se decepcionado com o livro, por esperar algo mais desafiador dele. Bem, ele não me decepcionou, mas também não colocaria na mesma categoria desses outros livrões citados.

Os Hamilton-Sweeney são uma família rica e tradicional de Nova York. William Hamilton-Sweeney III é a ovelha negra dessa família. Já saindo da adolescência ele foge de casa, descontente com o novo casamento do pai, que lhe dará uma madrasta e um tio pouco confiáveis (o irmão de Felicia é denominado, até, de Irmão Demoníaco). A irmã, Regan, mais certinha, ficou para trás para “tocar os negócios da família”. Mas isso só saberemos depois. É em volta desses irmãos que todas as outras personagens orbitam em maior ou menor grau. Quando Cidade em chamas começa, estamos em pleno réveillon, quando a cidade está deixando o ano de 1976 para trás. William, já com trinta e poucos anos, é uma lenda na cena underground de NY. Ex-líder da banda punk Ex-Post Facto, vive como pintor e divide o apartamento com o namorado, Mercer Goldman, um jovem professor de inglês negro que dá aulas numa tradicional escola para meninas. Vindo do interior dos EUA, Mercer ainda é um deslumbrado com a cidade que descobriu praticamente ao lado do namorado e sonha em escrever lá o grande romance americano. Já Regan está passando por um divórcio, com dois filhos, e entrando de cabeça ainda mais nos negócios da família.

Read more

Bonita Avenue, de Peter Buwalda

bonita-avenueSiem Sigerius é o respeitado reitor de uma universidade holandesa localizada em Enschede. Casado com Tineke, que faz móveis em sua casa de fazenda, ajudou a criar as duas enteadas, Joni e Janis. Joni, a mais velha, namora Aaron, fotógrafo que admira a figura de Sigerius e de quem acaba se aproximando muito por conta do jazz e de seus treinos de judô – esporte que Siem dominava na juventude e quase o fez participar das Olimpíadas, mas que abandonou após um acidente. Acamado, o tédio o levou à matemática, momento em que descobriu ser um gênio com os números. Mas no começo de Bonita Avenue, romance de Peter Buwalda (tradução de Cassio de Arantes Leite), essa composição familiar não existe mais. Através dos pontos de vista de Siem, Joni e Aaron, o autor vai revelando os acontecimentos que causaram o afastamento dessas pessoas – e a morte do reitor.

A vida de Sigerius começa a sair dos eixos quando, no ano 2000, percebe uma grande semelhança entre Joni e sua “atriz pornô” favorita: Linda, uma americana de cabelos escuros e olhos claros (o contrário de Joni), que posta suas fotos eróticas em um site. Lendo a sinopse você pode até pensar que Sigerius é um velho pervertido que nutre uma atração secreta pela jovem enteada, mas não. A relação dele com Joni é paternal e protetora, são poucos os momentos em que há algum tipo de tensão sexual entre os dois, e sua reação ao notar a semelhança é mais próxima do puritanismo: como assim minha filha está se expondo desse jeito na internet? A própria relação dele com a pornografia é recente, não é como se Siem fosse um incorrigível tarado.

Read more

Tirza, de Arnon Grunberg

tirzaJörgen Hofmeester é um homem de bem. Pai zeloso, profissional respeitado, marido dedicado, e mesmo assim foi abandonado pela bela mulher. Se preocupa com o futuro da família, economiza para deixar às duas filhas o necessário para nunca passarem nenhuma necessidade. Um homem de bem naquela concepção clássica de alguém que age pensando no bem-estar da família, para mantê-la unida e abastecida com o que precisar. “De bem”. Hofmeester é o protagonista de Tirza, romance do holandês Arnon Grunberg traduzido no Brasil por Mariângela Guimarães. Um personagem que tem de tudo para despertar a simpatia de qualquer um com seu jeito certinho e regrado de tocar a vida, mas que por algum motivo desconhecido só é pisoteado por ela. Mas essa impressão não passa de um equívoco inicial.

Ambientado em Amsterdã, Tirza é um romance sobre a decadência de um homem prestes a entrar na terceira idade. Perto dos 60 anos, Hofmeester está em sua casa, localizada no endereço mais respeitável da capital holandesa, preparando sushis e sashimis para a festa de formatura de Tirza, sua filha mais nova. Enquanto corta o peixe conforme os ensinamentos do curso que fez com a esposa pouco antes dela o deixar, ele repassa mentalmente tudo o que de mais importante lhe aconteceu até agora. Tirza está com 18 anos e partirá com o namorado em uma viagem pelo continente africano antes de entrar numa faculdade. A atraente esposa, que havia abandonado a família há três anos para viver um amor da juventude, volta para casa seis dias antes da festa, despertando raiva e alívio do marido. Ibi, a filha mais velha, deixou a casa há poucos anos e largou a faculdade para tocar um hotel na França junto com o namorado. Até ali, a vida de Hofmeester se resumia em ir de bicicleta para seu cargo de editor de língua estrangeira numa renomada editora, recolher o aluguel de seus inquilinos, cuidar da casa, do jardim e cozinhar para Tirza.

Read more

Romance moderno, de Aziz Ansari

romance-modernoSem vergonha alguma: sempre usei bastante sites de relacionamento. Tinder, Ok Cupid, Happn, até aquele Tastebuds, que faz matchs com as pessoas de acordo com o gosto musical – cheguei a baixar uma vez um aplicativo que fazia a combinação pelos signos, mas não tinha quase ninguém do Brasil usando, então nem deu pra testar. Curiosidade? Sim. Desespero? Talvez. Mas acho que conhecer pessoas é o que sempre procurei fazer desde que comecei a usar a Internet (lá por 2004, 2005, meio atrasada). Os aplicativos e sites de relacionamento são, para mim, como um novo chat do Terra. Não sou a pessoa mais social do mundo, sempre bate aquela ansiedade/medo/vergonha de interagir com um possível crush pessoalmente, então a internet foi sempre a primeira opção pra mim. O que muita gente acha estranho e/ou errado, mas vou mostrar aqui que não.

Mas Taize, o que tem relacionamento a ver com um blog de resenhas? A-há! A resenha de hoje é, caso você tenha ignorado o título do post, de Romance moderno, livro do ator/comediante Aziz Ansari (esse mesmo, do Parks and Recreations, do Master of None, do stand-up comedy). Romance moderno (traduzido por Christian Schwartz) é, como o subtítulo diz, “uma investigação sobre relacionamentos na era digital”. Não é um livro sobre relacionamentos na Internet, veja bem, mas sim um livro que procura explicar como a tecnologia influencia nossas abordagens e também fala da mudança de valores quando o assunto é amor. Com a ajuda do sociólogo Eric Klinenberg, Aziz fala de uma forma bem-humorada sobre os prós e contras de tanta conectividade na hora de encontrar a alma gêmea.

Read more

Os luminares, de Eleanor Catton

os-luminaresNova Zelândia, 27 de janeiro de 1866. Walter Moody acaba de chegar a Hokitika debaixo de uma tempestade, para no primeiro hotel que encontra e vai para a sala de fumantes depois de deixar seu quarto procurando por uma boa bebida. Escolhe uma cadeira e percebe que há um clima estranho no lugar: há mais doze homens com ele, cada um fazendo alguma coisa, mas todos com uma cara de desconfiança. Um deles, Thomas Balfour, decide puxar conversa e saber do motivo dele estar ali: quem é o jovem bem apessoado, o que faz em Hokitika, de onde veio, qual é a sua história. Depois de contar como veio parar na cidade – um conflito com seu pai que o fez querer sumir, adotando outro nome para subir a bordo da Goodspeed e ir atrás de ouro sem que ninguém saiba de seu paradeiro -, ele pergunta também o motivo de Balfour e todos os outros estarem ali.

Os doze homens se reuniram para discutir os estranhos eventos recentes de Hokitika. Crosbie Wells, um eremita bêbado que morava numa cabana no vale Arahura, foi encontrado morto em sua casa no dia 14 de janeiro. O corpo foi descoberto pelo político Alistair Lauderback, em viagem de campanha. No mesmo dia, Anna Wetherell, uma prostituta, é encontrada desacordada na estrada do vale para a cidade, provavelmente uma tentativa de suicídio por overdose de ópio. Ainda no mesmo dia, Emery Staines, o prospector de ouro mais rico da cidade, desaparece – sendo que ele havia contratado Anna pela noite toda no dia anterior. E todos desconfiam da participação de um só homem nesses eventos confusos, o capitão da Goodspeed, Francis Carver. É esse o mistério de Os luminares, de Eleanor Catton (tradução de Fábio Bonillo), que por quase 900 páginas tenta ser desvendado pelos homens da cidade, cada um com algum tipo de participação, mesmo que involuntária, no que aconteceu.

Read more