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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Relatos de um gato viajante, de Hiro Arikawa

relatos-de-um-gato-viajanteExistem mais filmes sobre cachorros, mas no mundo animal, acho que dá para dizer que os gatos são quem dominam a literatura. Ou, pelo menos, que a literatura ajudou a formar a imagem que temos dos gatos. Confissões do gato Murr, Eu sou um gato, até O mestre e Margarida, para deixar essa lista mais gorda, apresentam felinos que vão além da fofura aparente – muito pelo contrário. Arrogantes, superiores, críticos, desconfiados, orgulhosos, traiçoeiros: esses adjetivos fazem uma imagem não muito lisonjeira dos gatos, mas é disso que a gente gosta. Só que os gatos vão muito além disso, quem tem sabe muito bem disso.

E Relatos de um gato viajante, de Hiro Arikawa, é um livro que mostra isso muito bem (tradução de Rita Kehl, pela Alfaguara Brasil). O romance tem duas linhas narrativas: uma tradicional, em terceira pessoa, que dá conta de um passado que o outro narrador não viveu. E esse outro narrador é Nana, um gato de rua que foi adotado por Satoru, um homem de trinta e poucos anos, e que vive com ele há cinco anos. Nana tem todas essas características dos gatos que falei no parágrafo anterior: é orgulhoso, é arrogante, é teimoso. “O ser humano é uma criatura arrogante demais para quem não passa de um macaco gigante que sabe andar ereto”, ele diz. E ainda se considera um gato “excepcionalmente perspicaz”, com toda a humildade. Mas é o gato mais fofo que existe.

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O palácio da memória, de Nate DiMeo

o-palacio-da-memoriaÀs vezes personagens extraordinários se perdem na história. Muita gente já passou por esse mundo, poucas foram responsáveis por feitos notáveis, mas mesmo assim é um número considerável de gente que merece ser lembrada pelo que viveu, pelas dificuldades que enfrentou. Pena que esquecemos fácil. Nossa memória é incrível, mas não é das melhores. Seja por silenciamento premeditado ou pela passagem do tempo, nós esquecemos.

O palácio da memória é um projeto bacana por resgatar isso. O podcast The memory palace conta histórias de pessoas que não estão inscritas na grande História. Ex-escravos, mulheres que não se contentavam com o papel de boa esposa, visionários, cientistas, inventores… Nate DiMeo resgata essas pessoas de um passado não tão distante, e cria uma narrativa para aquilo que foi esquecido. Como Caetano W. Galindo, o tradutor, conta no posfácio do livro, ele se encantou com o podcast durante um voo longo. As narrativas de DiMeo, ele pensou, dariam um bom livro. E assim surgiu O palácio da memória, a versão “texto” do podcast lançada exclusivamente no Brasil pela Todavia.

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Os despossuídos, de Ursula K. Le Guin

os-despossuidosGostei de Ursula K. Le Guin logo na primeira vez que li A mão esquerda da escuridão. Não faz muito tempo que reli o romance, e ele ficou ainda melhor. Mas este ainda era o único livro dela que eu havia lido, e já estava na hora de diversificar um pouco. Aí surgiu Os despossuídos, uma ficção que se passa no mesmo universo que A mão esquerda…, mas em um planeta diferente. Ou melhor, em dois.

O físico Shevek nasceu em Anarres, um planeta desértico e anarquista. Cerca de 170 anos antes, Anarres era apenas a lua de Urras, um lugar com natureza vasta, cheio de matas, animais, paisagens bonitas e uma população socialmente dividida. Os menos afortunados de Urras se rebelaram contra as injustiças do planeta, liderados por Odo, uma mulher que acabou presa por suas ideias e nunca viveu na sociedade que idealizou. Mas quem seguiu Odo acabou tendo um destino diferente: foram mandados para Anarres, e lá criaram sua utópica sociedade sem governo, onde tudo é de todos. Quase 200 anos após os colonos chegarem na lua, alguém decide fazer o caminho contrário: pela primeira vez, um anarresti vai deixar o lar. Shevek está partindo para Urras.

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Tudo o que nunca contei, de Celeste Ng

tudo-o-que-nunca-conteiNada pior do que desejar algo, não conseguir e jogar suas expectativas para cima de outra pessoa que não tem nada a ver com o assunto. Esse seria um resumo básico do que é Tudo o que nunca contei, romance de Celeste Ng lançado pela Intrínseca (tradução de Julia Sobral Campos). Tudo começa com o desaparecimento – e consequente morte – de Lydia Lee, 16 anos, aluna exemplar e filha mais do que amada pelos seus pais e seus dois irmãos. A polícia trabalha com a hipótese de suicídio, e é isso o que provavelmente aconteceu – Tudo o que nunca contei não é nenhum thriller, se é isso o que você esperava. É sobre a relação entre pais e filhos e tudo o que pode dar errado quando não há diálogo.

O comportamento estranho de Lydia é notado por Hannah, sua irmã mais nova, na noite em que desapareceu. Hannah, sempre quieta, quase invisível, ouviu a irmã sair de casa durante a madrugada. Não falou nada aos pais nem ao irmão mais velho, Nate, prestes a ir para Harvard. Mesmo depois de saber que Lydia estava morta, mesmo com a polícia e seus pais implorando por alguma pista, uma explicação. Nate também percebeu que a irmã andava diferente nos meses anteriores, saindo com um garoto meio problemático da escola, deixando de fazer seus deveres, ainda mais afastada dos colegas e da família. Mas os pais de Lydia nunca notaram isso. Para eles, a filha preferida era popular, tinha muitos amigos, não tinha nenhum problema para se relacionar com as pessoas. Suicídio não era uma explicação lógica para a morte dela.

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Manual da faxineira, de Lucia Berlin

manual-da-faxineiraEu não fazia ideia de quem era Lucia Berlin até o lançamento de Manual da faxineira aqui no Brasil. Por algum motivo – talvez por causa da capa, ou do título –, não dei atenção para o livro quando começou a sair naquelas listas estrangeiras de melhores livros do ano, em 2015. Berlin não era uma autora muito lida nos EUA – sim, ela é americana –, ela era conhecida entre outros escritores, admirada por eles, mas não chegou a atingir o grande público. Não até Manual da faxineira. E não é porque seus contos são difíceis, intelectuais demais ou algo do tipo. Berlin tem uma escrita direta e bem-humorada, não é de se entender mesmo porque só anos depois de sua morte é que seus textos finalmente “estouraram”.

Manual da faxineira (tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras) reúne 43 contos dos 70 e poucos que ela escreveu até morrer, em 2004, aos 68 anos. Não é uma obra gigantesca, infelizmente. Porque é impossível não querer ler mais dela depois de terminar esse livro. Assim como é impossível separar com clareza o que é ficção e o que é sua vida, pois um dos ingredientes principais dos contos são suas próprias experiências. As enfermeiras, atendentes, professoras, faxineiras e assistentes que protagonizam suas histórias são profissões que ela mesma exerceu. Nascida no Alasca, ainda criança voltou para a cidade de sua família materna no Texas, quando o pai foi lutar na Segunda Guerra, e depois de lá viveu em diversas outras cidades dos EUA, do México e do Chile (El Paso, Oakland, Nova York, Cidade do México, Santiago…). Teve três casamentos, quatro filhos, enfrentou o alcoolismo, assim como essas personagens.

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White Teeth, de Zadie Smith

white-teethFamília, identidade e cultura: essas três palavras podem definir os livros de Zadie Smith. NW é uma trama que, sob o ponto de vista de quatro personagens que cresceram no mesmo bairro, mostra como eles se tornaram pessoas diferentes, com dramas próprios, mas unidos todos pela mesma geografia. Swing Time, seu livro mais recente, gira em torno do deslocamento de sua narradora, uma mulher com mãe negra e pai branco, que sente não pertencer a lugar nenhum, ligada a uma amiga que tem o mesmo background que o seu, mas que fez escolhas na vida e tem uma visão de mundo diferente do dela. As três palavras estão nessas tramas: o lugar em que cresceram, o lugar em que pertencem – ou querem pertencer –, as culturas de que se alimentam suas personagens. E tudo isso começou com White Teeth.

O primeiro romance de Zadie Smith não poderia começar de maneira mais depressiva: na manhã de Ano Novo, Archie Jones está trancado dentro de seu carro, os vidros fechados quase totalmente, não fosse por uma mangueira presa na janela e ligada ao escapamento do veículo. Após anos de casado, sua esposa o abandonou. Archie não está desconsolado pelo fim do relacionamento, e sim porque gastou todos esses anos da sua vida com uma mulher insossa e um emprego sem ambições. A morte seria preferível a uma vida sem graça. Mas os planos de Archie são frustrados por comerciantes muçulmanos, donos do estabelecimento onde ele estacionou para morrer. Archie toma a interferência como um sinal de que precisa continuar. Levado pelo destino, termina a manhã numa “Festa do Fim do Mundo” onde conhece Clara Bowden, uma jovem negra, filha de jamaicanos, Testemunha de Jeová e que está sem os dentes da frente. Archie tem quase 50 anos, Clara tem 18. E a partir do momento em que se veem, sabem que vão terminar juntos.

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Complô contra a América, de Philip Roth

complo-contra-a-americaSei que é bobagem essa coisa de “currículo literário”, de que certas obras ou autores são obrigatórias. Mas sempre senti que, se tem um autor que eu deveria mesmo ler, esse seria Philip Roth. E demorei para pegar um livro dele. Com todo esse negócio de Donald Trump presidente, Bolsonaros e seus fãs, gente achando que a ditadura deve voltar e tudo o mais, a escolha para começar a ler Roth foi mais do que certeira: Complô contra a América, lançado em 2004 (tradução de Paulo Henriques Britto).

Neste romance com ares autobiográficos, Roth imagina um cenário em que Charles Lindbergh – pioneiro da aviação, um herói americano, porém simpatizante do nazismo – vence as eleições presidenciais americanas em 1940, derrotando Franklin D. Roosevelt. Com isso, o cenário dos EUA, um lugar até então seguro para os judeus em plena Segunda Guerra Mundial, muda totalmente. Tudo isso é visto pelo pequeno Philip Roth, com sete anos de idade. Seu pai tinha fé absoluta de que Lindbergh jamais teria chances de chegar à presidência. Sua simpatia pelo nazismo era evidente demais, e nenhum cidadão americano em plena consciência pensaria que essa seria uma boa escolha. Enquanto isso, Roosevelt havia tirado o país da crise, ajudado os americanos, era visto quase como um herói pelo pai de Roth. Como Lindbergh chegou, então, a vencer as eleições?

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O fim da história, de Lydia Davis

81YPy2d4ZVLLydia Davis é um dos principais nomes do conto norte-americano. Tipos de perturbação, seu primeiro livro lançado no Brasil, é uma boa prova disso. Com contos curtíssimos, alguns com apenas um parágrafo ou uma frase, até os contos mais longos, Davis cria histórias como se isso fosse a coisa mais fácil do mundo. São textos que falam de solidão, relacionamentos, arte, abrir embalagens difíceis, tudo com um humor sutil, sem precisar carregar nos enfeites – isso quando tem enfeites. Mas seu primeiro romance que li não me causou o mesmo efeito.

O fim da história (tradução de Julián Fuks) é um romance curto que narra uma história de amor fadada ao fracasso. A narradora, professora e tradutora, resolve colocar no papel o relacionamento conturbado que teve com um homem mais jovem do que ela. A questão do relacionamento não gira só em torno da idade, do desconforto que ela sente em muitos momentos por estar ao lado de alguém que não compartilhou uma mesma época que ela. Há muitas diferenças de personalidade entre os dois, diferenças que eram do conhecimento de ambos desde o início. Então não foi uma surpresa, nem para a narradora nem para seu antigo amante, o fim que sua história teria. A surpresa é a obsessão que veio junto com o término.

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História da menina perdida, de Elena Ferrante

historia-da-menina-perdidaUma das coisas que mais gosto na série napolitana da Elena Ferrante é que ela consegue te manter presa a qualquer detalhe da história. A amiga genial já era, desde os primeiros capítulos, uma narrativa cativante: o bairro pobre de Nápoles dos anos 1950, os sonhos infantis das duas meninas de serem autoras de livros importantes, o constante embate que as duas travavam, uma tentando superar a outra, mas nunca se ressentindo por completo. Mas o que me pegou mesmo foi o final do livro. Aquele final novelesco de “você só vai saber no próximo episódio” – nesse caso, no próximo volume da série –, “o que aconteceu naquele momento derradeiro”. E Ferrante segue assim, deixando esse suspense do que irá acontecer, do que Lila vai fazer ou de como Lenu vai contar suas memórias.

História da menina perdida, o último livro da série, já chegou com a expectativa de resolver o mistério que Ferrante apresentou no primeiro livro: onde está Lila, como ela conseguiu sumir completamente, sem deixar para trás nada do que foi seu – nem dinheiro, nem cartas, nem fotos, nada. Lila se “deletou”, como havia afirmado para a amiga que gostaria de fazer. Não quer pertencer a nada, quer desaparecer como um todo, sem deixar sinal de que ela um dia existiu. Contrariando a amiga – como um último ato de rebeldia –, Lenu conta toda a sua história, misturando a vida das duas meninas que se conheceram no bairro brincando de bonecas com a história da Itália, as duas crescendo e virando mulheres com filhos para criar enquanto o mundo acelera nas suas mudanças. É o que Ferrrante entrega do primeiro ao último livro. E os mistérios que tanto queríamos desvendar, bem, eles serão para sempre mistérios. Read more

Lincoln in the Bardo, de George Saunders

lincoln-in-the-bardoGeorge Saunders é um dos principais nomes do conto norte-americano. Aqui no Brasil, lançou Dez de dezembro, livro que reúne dez contos que, como escrevi na época, são “de alguma forma ligados a questões como a realidade obscura da vida no subúrbio, conflitos morais, o cotidiano com suas falhas, acertos, dramas e comédias”. Os contos possuem certa dose de fantasia, ou de absurdo, mas são, basicamente, sobre questões existenciais, sobre o comum da vida. Lembro de ter gostado de tudo nesses contos: dos enredos, das personagens, da maneira com que Saunders escreve. Então não foi por puro acaso que li Lincoln in the Bardo, seu primeiro romance que foi lançado no começo desse ano.

Lincoln in the Bardo chegou com grande barulho lá fora (aqui deve ser lançado mais para o fim do ano). Não só por ser a primeira narrativa longa de Saunders, que também dá aulas de escrita criativa, mas por causa da própria inventividade do autor. Outro detalhe chamativo é o seu audiobook, que tem um elenco invejável: Nick Offerman, David Sedaris, Carrie Brownstein, Ben Stiller, Julianne Moore, Miranda July, Susan Sarandon, Jeff Tweedy, Bill Hader, o próprio Saunders e muito mais gente. Só essa lista já dá uma ideia do que é essa história e de como ela é contada, e aumentou todas as minhas expectativas para a leitura. Expectativas que foram muito bem alcançadas.

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