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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Homo Deus, de Yuval Noah Harari

homo-deusFome, pestes e guerra: durante toda a sua existência, o homem teve que superar essas tragédias para se manter vivo. A fome dizimava populações inteiras, metade das pessoas na Terra podiam perecer a uma nova peste que matava rapidamente, durante séculos nações viveram em pé de guerra e os momentos de paz mundial eram apenas pequenos intervalos entre um conflito e outro. No século XXI, esses “problemas” foram minimizados: as pessoas morrem mais de diabetes e obesidade que de fome; novas doenças são rapidamente isoladas e combatidas; conflitos entre nações ainda existem, mas a morte por homicídio e até suicídio superam as mortes em guerras. Vivendo nesse tempo de paz constante, qual será a próximo passo do homo sapiens?

O parágrafo anterior resume a introdução de Homo Deus (tradução de Paulo Geiger), novo livro de Yuval Noah Harari, que em seu livro anterior, Homo sapiens, registrou toda a história do homem em milhares de anos de existência. Sua ideia neste novo livro é mostrar as possibilidades do futuro do homem, qual será a próxima “evolução” do homo sapiens. Uma história que, por conta de todos os avanços científicos que tivemos, é otimista e pessimista ao mesmo tempo, um aviso sobre as questões éticas e morais de nossos avanços tecnológicos.

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História de quem foge e de quem fica, de Elena Ferrante

historia-de-quem-foge-e-de-quem-ficaNão teve um autor neste ano que quis tanto ler quanto Elena Ferrante. Os livros da tetralogia napolitana são aquela leitura que eu apenas precisava fazer o mais rápido possível, assim como os outros livros da autora italiana que foram chegando ao Brasil durante 2016. E, felizmente, eles nunca são uma decepção. O terceiro livro da série, História de quem foge e de quem fica (tradução de Maurício Santana Dias), mantém a qualidade dos outros volumes – e o dramalhão, claro. A violência do bairro que Lenu narra no primeiro livro, A amiga genial, ainda existe, agora intensificada pelas lutas da classe operária por melhores condições de trabalho, um embate entre esquerdistas e fascistas e também entre os intelectuais e os trabalhadores. Assim como continua a conturbada relação da narradora com sua melhor amiga, Lila, uma mulher de grande inteligência e sentimentos sempre à flor da pele, que não sabemos ao certo que tipo de amizade nutre por Lenu. E a vida das duas segue se cruzando.

No início do terceiro livro, Lenu narra como foi seu último encontro com a amiga: as duas, já com idade avançada, passeiam pelo bairro de Nápoles. A morte de uma de suas amigas da juventude, Gigliola, pauta a conversa. Como no começo dos livros anteriores, a cena serve para Ferrante relembrar o objetivo de Lenu ao narrar sua história com a Lila: desaparecida sem deixar rastros, Lenu faz justamente o que ela a proibiu de fazer, contar toda a sua história. Registrar sua presença no mundo. A partir disso, o livro continua do ponto em que parou: o lançamento do primeiro livro de Elena Greco e o reaparecimento de Nino, por quem é apaixonada desde pequena e que teve um caso com Lila.

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A música do universo, de Janna Levin

a-musica-do-universoJanna Levin não sabia que os cientistas do grupo Ligo (sigla em inglês para Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria Laser) haviam detectado ondas gravitacionais quando enviou para alguns deles uma versão quase pronta de seu livro, A música do universo. Durante anos, a física e jornalista entrevistou dezenas de pessoas envolvidas no projeto que tem como objetivo comprovar a teoria das ondas gravitacionais de Albert Einstein. Quando estava finalizando seu manuscrito, o que tinha de material eram as histórias por trás dessa iniciativa: a burocracia para conseguir fundos, as intrigas entre os cientistas, os seus temperamentos difíceis e o trabalho para tirar tudo do papel. Mas meses antes do centenário da teoria de Einstein e do livro de Levin ser lançado, o Ligo detectou ondas causadas pela colisão de dois buracos negros a milhões de anos-luz da Terra. A teoria estava comprovada. As ondas gravitacionais existiam. Einstein estava certo: dois corpos celestes de grandes massas eram capazes de provocar ondas que se propagavam na malha do espaço-tempo do universo como o som que sai de um tambor e chega ao seu ouvido – impossível de ser visto, mas podendo ser sentido.

A música do universo (traduzido por Paulo Geiger) é uma biografia deste projeto que começou a ser concebido há 50 anos. Quando, no começo do ano, foram divulgadas as descobertas destes cientistas, muita gente certamente nem fazia ideia de que existia um trabalho tão enorme para detectar tal fenômeno do universo. Ainda mais imaginar que ele durou tanto tempo para entrar em funcionamento – o grande ápice do livro, não fosse a comprovação da teoria, seria fazer as máquinas do Ligo pelo menos funcionarem, o que não é pouca coisa. O que Janna Levin mostra nesse livro, além das explicações simples sobre a teoria das ondas gravitacionais, o que são os buracos negros, quais seriam as prováveis origens das ondas e como poderíamos (e, de fato, podemos) captá-las, é toda a luta que existe para simplesmente conseguir colocar o plano em prática.

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Enclausurado, de Ian McEwan

enclausuradoDe dentro do útero da mãe, um feto de quase nove meses escuta os planos horríveis de sua genitora para assassinar seu pai. Ela arquiteta o plano com seu amante, que vem a ser também o tio do feto. O motivo do crime é a casa onde eles se encontram, um imóvel que, apesar de decrépito, vale cerca de seis ou sete milhões de libras. Se a mãe, Trudy, simplesmente se separasse do editor e poeta John, ela não conseguiria um bom acordo que enriquecesse sua conta bancária e a de Claude, o amante/cunhado. A única saída para arrancar dinheiro do decadente poeta é o assassinato. E o feto escuta tudo.

“Então aqui estou, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente esperando, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda”, diz o feto na primeira linha de Enclausurado, novo romance de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster). Através da barriga da mãe ele escuta tudo, todas as maquinações e depravações dela e do amante, e isso aterroriza a mente do ser que ainda nem chegou ao mundo. O feto que narra este livro se preocupa com o que será do seu futuro caso o plano seja colocado em prática, mas pouco pode fazer para evitá-lo estando ainda preso ao cordão umbilical. Resta a ele apenas a contemplação e as previsões de como será o seu futuro, sendo criado por dois assassinos ou então abandonado, dado para a adoção. Nenhum dos cenários lhe parece bom.

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A história secreta, de Donna Tartt

a-historia-secretaSe tem uma coisa que eu gostaria de fazer mais é reler os livros que eu gosto. Tem histórias que merecem receber nova atenção, entrar novamente nelas com um pouco mais de experiência e com uma visão diferente. Fora que, com as boas histórias que você já conhece, a chance de se divertir e se encantar com a leitura são grandes. É aquela coisa de reencontrar um amigo antigo que você gostava muito mas que, por algum motivo, não tinha mais muito contato. Nesse ano consegui, finalmente, reler A história secreta, de Donna Tartt. O engraçado é que só percebi que já tinha lido esse livro quando foi lançado no Brasil O pintassilgo, seu romance mais recente. Eu lembrava que, quando eu tinha 15 ou 16 anos, eu li uma história sobre um grupo de estudantes de grego e havia gostado muito dela. Acho que foi um dos primeiros livros mais “densos” que eu tinha lido na vida depois de Harry Potter. O problema é que eu não lembrava do título do livro e nem quem era a autora. E aí reencontrei Donna Tartt.

A história secreta (tradução de Celso Nogueira) é narrado por Richard, um jovem que nasceu e cresceu na Califórnia e, para escapar da mediocridade da sua cidade e de sua família, consegue uma bolsa na universidade de Hampden, em Vermont. Hampden não é das universidades mais exigentes dos EUA, mas cultiva certa fama entre o povo de “humanas” – artistas, beletristas etc. Abandonando o curso de medicina que fazia na Califórnia para entrar no mundo das letras, Richard tenta ao máximo se encaixar no estilo de vida de seus colegas, escondendo sua origem pobre para se integrar aos modos das pessoas que nasceram em famílias abastadas. Nas primeiras semanas de aula, ele topa com um grupo peculiar de estudantes: Henry, Bunny, Francis e os irmãos gêmeos Charles e Camila, que compõem a seleta turma de grego do professor Julian.

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Meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout

meu-nome-e-lucy-bartonLucy Barton tem complicações durante uma cirurgia e tem que passar alguns dias em observação, internada num hospital em Nova York. Da janela ela observa o edifício Chrysler, imagem constante em suas noites insones e solitárias, em que pensa nas duas filhas pequenas – se sentem sua falta, se seu marido está dando conta de cuidar das duas – e no trabalho deixado de lado momentaneamente por conta da saúde. Lucy Barton é escritora. No momento da cirurgia e da internação, está publicando seus primeiros textos em revistas renomadas. Mas a Lucy Barton que conta esta história já tem uma obra consolidada, e o que ela pretende aqui é relembrar cinco dias específicos de sua internação que acabou durando bem mais do que ela previa: os cinco dias em que recebeu a visita de sua mãe. Este é Meu nome é Lucy Barton, livro de Elizabeth Strout que esteve entre os indicados do Man Booker Prize deste ano (tradução de Sara Grünhagen), mas não chegou a ser finalista do prêmio.

Há anos Lucy não via sua mãe. Sua presença no quarto do hospital foi uma feliz surpresa, mas que também amedrontadora. Ela não fazia ideia do motivo da mãe estar ali (depois soube que seu marido ligou para a sogra e pediu que fosse visitá-la, pois ele tinha pavor de hospitais), e nem o que a mãe pensava do lugar onde estava, da vida que a filha vinha levando tão longe dela. Lucy e sua mãe são bem diferentes, e apesar dela notar algo familiar, uma sensação aconchegante vinda do passado, ela também sente que não está conectada com a mãe, assim como nunca se conectou muito à família após deixar a cidadezinha do interior onde cresceu. E assim a Lucy dos dias atuais explica essa relação não conflituosa, mas complicada, entre mãe e filha, em que constrói um relato sobre identidade, seu lugar no mundo e a importância das pessoas.

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Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara

uma-vida-pequena-de-hanya-yanagiharaNão vai ser fácil falar de Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara (tradução de Roberto Muggiati). Não é aquela velha dificuldade de falar de algo que você gostou muito sem saber direito o motivo de ter gostado. Eu sei bem porque gostei de Uma vida pequena. Mas é que esse romance foi difícil de terminar por conta do quanto Hanya te faz se apegar aos personagens e por todo o sofrimento que o livro contém.

Uma vida pequena conta a história de vida de quatro amigos que se conheceram na faculdade. Mas o romance começa depois disso: quando estão com vinte e cinco, vinte seis anos, todos voltam para a cidade de Nova York em busca de emprego ou fama. JB é um pintor e artista plástico, mantém um emprego de recepcionista numa agência porque espera fazer contatos para ser exposto numa galeria. Malcolm é arquiteto, está engatinhando em seus primeiros projetos. Tanto Malcolm quanto JB possuem famílias que os mantém bem financeiramente, e suas preocupações não são tanto com dinheiro, mas querem se destacar no que fazem.

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A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

a-guerra-nao-tem-rosto-de-mulherPense nos relatos de guerra, de que forma eles são feitos. Há a história de quem ganha, cheia de atos heroicos e grandiosidade. Há a de quem perde, essa talvez menos contada, provavelmente porque desperta vergonha, vulnerabilidade. Mas uma coisa que essas histórias têm em comum é a sua fonte: geralmente narradas por homens, construídas por eles. Em filmes, livros, séries, quando a guerra é o tema são os homens os personagens principais. As mulheres têm o papel de cuidar dos homens, ser suas enfermeiras, suas amantes, aquelas que seguram as pontas em casa e esperam pela sua volta. Mas há um papel que as mulheres tiveram na Segunda Guerra Mundial que, perto do tanto de histórias que temos de homens lutando, é praticamente esquecida. A história das mulheres que realmente combateram, pegaram em armas e estiveram no campo de batalha. Essa é a história que Svetlana Aleksiévitch quer contar.

Em A guerra não tem rosto de mulher (tradução de Cecília Rosas), a jornalista bielorrussa entrevista centenas de mulheres que combateram pelo exército soviético ou em grupos civis. São franco-atiradoras, tanquistas, médicas, enfermeiras, lavadeiras, pilotos, enfim, mulheres que lutaram em todas as frentes, que assumiram o posto dos homens e fizeram o trabalho tão bem (ou até melhor) do que eles. A motivação de Aleksiévitch, como ela diz na introdução, é mostrar como o relato das mulheres difere do dos homens. Ela quer mostrar uma guerra que não foi feita de heroísmo, que não teve, no final, vencedores ou perdedores. Ela quer uma guerra com sentimentos, com as dores e as (poucas) alegrias que o conflito guarda. É dar às mulheres a chance de contar o que elas nunca contaram.

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Dias de abandono, de Elena Ferrante

dias-de-abandonoOlga é abandonada por Mario após quinze anos de casamento. Eles vivem num apartamento em Turim, na Itália. Ela, escritora, deixou o trabalho de lado para cuidar da casa e dos filhos, Gianni e Ilaria. Depois de um almoço em que tudo aparentava estar tranquilo, Mario lhe comunica calmamente que está indo embora. Olga fica sozinha com as crianças, tentando entender o que aconteceu, tentando não ser consumida pelo rancor do abandono.

Este é o enredo do curto romance de Elena Ferrante, Dias de abandono (tradução de Francesca Cricelli). A autora da série Napolitana mantém neste livro a mesma intensidade narrativa que encontramos em A amiga genial e História do novo sobrenome. Quem nos conta todo o drama da separação é a própria Olga, que aproxima o leitor de seus sentimentos e medos.

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A história dos meus dentes, de Valeria Luiselli

0c07f0b1-e096-431e-b570-dce06c9ea491Uma fábrica de sucos do México convidou a autora Valeria Luiselli para escrever sobre a organização do catálogo de uma galeria. Essa fábrica patrocina e mantém uma das maiores coleções de arte do país, e o convite fazia parte de mais uma obra artística. Valeria aceitou a encomenda, porém não queria escrever sobre esse tema específico. Ela se interessou mais pelos operários da fábrica. E assim começou a escrever capítulos curtos que, semanalmente, eram enviados de Nova York, onde vive, para o México. O texto era impresso em pequenos caderninhos e distribuídos entre os operários que liam e, uma vez por semana, se reuniam para discutir o texto. Os encontros eram gravados e os comentários eram, então, enviados de volta para Valeria nos EUA. Ela fazia alterações conforme as sugestões ou críticas dos funcionários da fábrica de sucos. Assim nasceu A história dos meus dentes (tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman).

Gustavo Sánchez Sánchez, mais conhecido como Estrada, é o melhor leiloeiro do mundo (mas só ele sabe disso), e quer escrever a sua “autobiografia dental”. Antes de ser leiloeiro, foi segurança de uma fábrica de sucos na Cidade do México, fábrica que patrocinava e mantinha uma grande galeria de arte. Galeria que ele nunca conheceu por dentro, pois não saía dos portões da fábrica. Depois de passar por outros cargos lá dentro, fazer cursos e mais cursos, deixar o emprego, se casar e ter um filho, Estrada vira leiloeiro.

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