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Resenhas e aleatoriedades literárias.

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Romance moderno, de Aziz Ansari

romance-modernoSem vergonha alguma: sempre usei bastante sites de relacionamento. Tinder, Ok Cupid, Happn, até aquele Tastebuds, que faz matchs com as pessoas de acordo com o gosto musical – cheguei a baixar uma vez um aplicativo que fazia a combinação pelos signos, mas não tinha quase ninguém do Brasil usando, então nem deu pra testar. Curiosidade? Sim. Desespero? Talvez. Mas acho que conhecer pessoas é o que sempre procurei fazer desde que comecei a usar a Internet (lá por 2004, 2005, meio atrasada). Os aplicativos e sites de relacionamento são, para mim, como um novo chat do Terra. Não sou a pessoa mais social do mundo, sempre bate aquela ansiedade/medo/vergonha de interagir com um possível crush pessoalmente, então a internet foi sempre a primeira opção pra mim. O que muita gente acha estranho e/ou errado, mas vou mostrar aqui que não.

Mas Taize, o que tem relacionamento a ver com um blog de resenhas? A-há! A resenha de hoje é, caso você tenha ignorado o título do post, de Romance moderno, livro do ator/comediante Aziz Ansari (esse mesmo, do Parks and Recreations, do Master of None, do stand-up comedy). Romance moderno (traduzido por Christian Schwartz) é, como o subtítulo diz, “uma investigação sobre relacionamentos na era digital”. Não é um livro sobre relacionamentos na Internet, veja bem, mas sim um livro que procura explicar como a tecnologia influencia nossas abordagens e também fala da mudança de valores quando o assunto é amor. Com a ajuda do sociólogo Eric Klinenberg, Aziz fala de uma forma bem-humorada sobre os prós e contras de tanta conectividade na hora de encontrar a alma gêmea.

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Os luminares, de Eleanor Catton

os-luminaresNova Zelândia, 27 de janeiro de 1866. Walter Moody acaba de chegar a Hokitika debaixo de uma tempestade, para no primeiro hotel que encontra e vai para a sala de fumantes depois de deixar seu quarto procurando por uma boa bebida. Escolhe uma cadeira e percebe que há um clima estranho no lugar: há mais doze homens com ele, cada um fazendo alguma coisa, mas todos com uma cara de desconfiança. Um deles, Thomas Balfour, decide puxar conversa e saber do motivo dele estar ali: quem é o jovem bem apessoado, o que faz em Hokitika, de onde veio, qual é a sua história. Depois de contar como veio parar na cidade – um conflito com seu pai que o fez querer sumir, adotando outro nome para subir a bordo da Goodspeed e ir atrás de ouro sem que ninguém saiba de seu paradeiro -, ele pergunta também o motivo de Balfour e todos os outros estarem ali.

Os doze homens se reuniram para discutir os estranhos eventos recentes de Hokitika. Crosbie Wells, um eremita bêbado que morava numa cabana no vale Arahura, foi encontrado morto em sua casa no dia 14 de janeiro. O corpo foi descoberto pelo político Alistair Lauderback, em viagem de campanha. No mesmo dia, Anna Wetherell, uma prostituta, é encontrada desacordada na estrada do vale para a cidade, provavelmente uma tentativa de suicídio por overdose de ópio. Ainda no mesmo dia, Emery Staines, o prospector de ouro mais rico da cidade, desaparece – sendo que ele havia contratado Anna pela noite toda no dia anterior. E todos desconfiam da participação de um só homem nesses eventos confusos, o capitão da Goodspeed, Francis Carver. É esse o mistério de Os luminares, de Eleanor Catton (tradução de Fábio Bonillo), que por quase 900 páginas tenta ser desvendado pelos homens da cidade, cada um com algum tipo de participação, mesmo que involuntária, no que aconteceu.

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História do novo sobrenome, de Elena Ferrante

historia-do-novo-sobrenomeQuando terminei a resenha de A amiga genial no ano passado, falei que a curiosidade de ler a série Napolitana de Elena Ferrante vinha desse mistério sobre a autora: dá poucas entrevistas e nenhuma pista sobre sua real identidade. Mas além disso, também falei que, fora essa curiosidade, o romance se sustenta sozinho, justamente o objetivo de Elena ao querer manter a sua identidade desconhecida. Se eu pensava que essa era uma estratégia muito bem-feita de chamar a atenção do mercado editorial e de ser lida, não penso mais o mesmo depois de ler o segundo livro, História do novo sobrenome. Não importa mesmo quem ela é, porque enquanto lia nem pensava nesse mistério. A qualidade de A amiga genial e a maneira que o livro terminou fizeram minhas expectativas crescerem muito com a série, e o segundo livro alcançou todas elas.

Com tradução de Maurício Santana Dias, História do novo sobrenome começa um pouco além do ponto em que o primeiro livro acaba: o casamento de Lila Cerullo com Stefano Caracci, dono da charcutaria do bairro humilde de Nápoles. A festa luxuosa do jovem casal, que marcaria sua entrada na vida adulta e prometia um futuro feliz, só foi perfeita nas aparências. Como descobrimos depois, logo na primeira noite juntos Lila percebe o erro que cometera ao se casar. Ela não esconde do marido seu arrependimento, e os dois logo entram em conflito. Na noite de núpcias começam as agressões de Stefano na mulher, que apesar dos socos e tapas não recua em sua rebeldia. Isso tudo é narrado, claro, por Lenu Greco, que semanas após o casamento descobre o que vem acontecendo entre ela e seu marido. Ela só vai conhecer de verdade os sentimentos da amiga meses depois, quando Lila lhe confia alguns cadernos em que registra a história do seu casamento, sua infância e outros pensamentos – itens importantes para Lenu entender coisas que nunca teria notado sozinha. Mas antes de estar de posse desses cadernos, Lenu já tem preocupações quanto ao futuro brilhante da amiga, deixado de lado por causa de uma união conveniente apenas para sua família.

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O pomar das almas perdidas, de Nadifa Mohamed

o-pomar-das-almas-perdidasEm 21 de outubro de 1987, três mulheres de diferentes gerações se encontram de maneira dramática. O encontro acontece durante a cerimônia que comemora o início do governo de Siad Barre em 1969, realizado num estádio na segunda maior cidade da Somália, Hargeisa. Todos da cidade, principalmente as mulheres, são convocados a participar e exultar o poder do presidente. Nem todas estão satisfeitas de estarem nessa situação. É através dessas três mulheres que Nadifa Mohamed narra os eventos que dariam início à Guerra Civil da Somália em O pomar das almas perdidas (tradução de Otacílio Nunes).

Kawsar é uma senhora solitária e idosa que vive em um pequeno bangalô de Hargeisa. Viúva, foi casada com um antigo chefe da polícia da cidade antes do golpe, e perdeu sua jovem filha logo depois, que não se recuperou após ser presa com estudantes que protestavam contra o governo. As duas perdas e a solidão em que ficou anos depois só aumentaram sua antipatia com todo o regime em que vive o país, e é com desgosto que ela caminha com suas vizinhas até o estádio. “As mães da revolução foram chamadas de sua cozinha, de suas tarefas, para mostrar a dignatários estrangeiros como o regime é amado, quanto elas são gratas pelo leite e pela paz que lhes trouxe. Ele precisa de mulheres que o façam parecer humano”, pensa ela enquanto entra no estádio.

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O último samurai, de Helen DeWitt

o-ultimo-samuraiSibylla foi ainda jovem para a Inglaterra. Inventou suas próprias habilidades para conseguir estudar em outro continente, não que ela não soubesse de nada, apenas porque não precisava que nenhuma autoridade atestasse o que ela sabe. Sibylla é uma jovem peculiar de uma família peculiar. Filha de uma mulher com talento para música, mas não talento suficiente para viver dela e se tornar a pianista que sonhava – assim como aconteceu com todos os seus tios. O pai, ateu, se desviou de um futuro brilhante nas ciências exatas para satisfazer a vontade de seu pai, um pastor, de pelo menos dar uma chance à religião. Duas pessoas que foram levadas a não fazer aquilo que queriam e nunca mais conseguiram voltar, que construíram juntos uma rede de motéis e cuja vida se resumia a isso – encontrar o próximo lugar à beira da estrada que poderia abrigar mais um empreendimento de sucesso. Sibylla quis sair dessa vida, e conseguiu.

Voltar para os Estados Unidos seria um fracasso pessoal para Sibylla. Com ajuda de uma amiga, consegue um visto de trabalho na Inglaterra, arruma emprego em uma editora, conhece um escritor famosinho em uma festa com quem passa apenas uma noite, e dessa noite nasce Ludo (ou David, ou Steven ou Stephen). Agora, cuidando de um garoto brilhante de quatro anos de idade, ela ganha a vida como digitadora de revistas cujos temas são os mais absurdos possíveis, e cuida sozinha da educação do filho. Uma criança tão peculiar quanto toda a sua família.

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O mundo em chamas, de Siri Hustvedt

o-mundo-em-chamasÉ meio incrível pensar que, ainda em 2016, precisamos falar tanto sobre mais espaço para as mulheres. Mais espaço na política, nos negócios, na literatura… É incrível porque é (ou deveria ser) óbvio que mulheres são tão capazes de fazer alguma coisa e terem sucesso nela quanto um homem. Porque é óbvio que elas deveriam receber igual reconhecimento – público e monetário. Porque é óbvio que ser mulher não significa ser fraca, incapaz, ou qualquer outro adjetivo que antigamente davam à gente para justificar menor participação na sociedade. Mas parece que é difícil aceitar essa obviedade. Ou talvez nem nos damos conta de quão óbvio é. E aí as mulheres têm que, toda vez, não só tentar se sair bem num mundo masculino, mas provar que essa falta de reconhecimento existe.

Provar a existência do apagamento da mulher é o objetivo de Harriet Burden, artista com mais de 60 anos que vive em Nova York e protagonista de O mundo em chamas, de Siri Hustvedt (tradução de Ana Ban). Durante anos casada com um famoso marchand e mãe de dois filhos, o mundo artístico sempre foi o seu lugar. O problema é que esse mesmo mundo a ignora. Suas exposições não recebem atenção da imprensa, da crítica e do público. Jovens recém-saídos da faculdade de artes se saem muito melhor do que ela, que está há anos na estrada. É mais conhecida por ser esposa de Felix Lord do que por suas obras, que quase nada venderam. Até ela vir com uma ideia: expor sua arte usando “máscaras”, artistas homens que se apresentariam como autores das peças expostas para provar como a recepção à obra mudava quando se sabia que havia um “pau” por trás dela.

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Estação Atocha, de Ben Lerner

estacao-atochaAdam Gordon é norte-americano, tem 20 e poucos anos, é poeta e está vivendo em Madri. Ganhou uma bolsa prestigiosa para viver um tempo na capital espanhola para escrever. Mas no lugar de alegria, orgulho ou contentamento ( qualquer sentimento mais eufórico sobre ser um jovem poeta promissor), ele sente bem o contrário. A rotina é medida pelos momentos em que toma seus remédios para controlar a depressão e ansiedade. Mais fuma e passeia do que escreve. Enfim, Adam não se sente digno da bolsa, de ser chamado de poeta, não vê exatamente genialidade naquilo que escreve e pensa que a bolsa seria bem mais aproveitada por outro estudante que soubesse falar espanhol melhor que ele. Ele se considera uma farsa, e para disfarçar o iminente fracasso que vai desmascará-lo a qualquer hora, inventa algumas mentiras aqui e ali só para parecer mais interessante.

Protagonista e narrador de Estação Atocha, de Ben Lerner (tradução de Gianluca Giurlando), Adam pode parecer um personagem intragável, mas não é. Ele é só mais um jovem inseguro que se compara demais com os outros, pensando que não merece nada daquilo de bom que lhe acontece. Estação Atocha acompanha esses meses de bolsa, suas tentativas de interagir com a comunidade artística de Madri, com as mulheres que encontra, com sua compreensão afetada pelo seu espanhol ruim (ruim, pelo menos, em sua auto-avaliação), com sua batalha interna de lidar com as próprias mentiras que dão início a uma culpa instantânea. Ben Lerner acompanha os vaivéns de um poeta sem muita confiança em si mesmo.

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Mais uma lista de melhores leituras de 2015 (que ninguém aguenta mais)

Por trabalhar com redes sociais para uma editora, o que mais ando vendo no fim do ano são as listas de melhores livros do bendito ano. E eu não aguento mais tanta lista. Já tem até uma lista das melhores listas de melhores livros (please, stop listas, mas essa é bem legal porque mostra umas estatísticas das listas, como número de autoras mulheres, homens, traduções, brancos, negros que aparecem nelas etc.). Mas se eu não suporto mais ver tanta lista por aí, por que estou fazendo uma? Porque é tradição, porque quero relembrar o que li esse ano, porque o Google adora e vivo recebendo visitas no blog por causa delas (rs).

De acordo com o DATAr.izze.nhas (a página de livros lidos), o número de títulos que eu li vem caindo a cada ano, shame on me. Já cansei de procurar desculpa para justificar isso (ano passado foi a mudança para São Paulo), então vou jogar a real e dizer que às vezes estou tão cansada, mas tão cansada, que só quero deitar no sofá e encarar a parede (ou então assistir novela mesmo). Ou talvez esteja desenvolvendo alguma dificuldade de me manter concentrada em uma coisa só. Mas ainda consegui reunir nove livros que gostei muito mesmo de ler em 2015, entre coisas que comecei no ano passado (beijo, DFW) e até uma releitura. Então, segue a listinha em ordem cronológica de leitura. :)

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Gigantes, de Pedro Henrique Neschling

gigantesJá devo ter comentado em algum texto, acredito, sobre aquilo que eu pensava que gostaria de ser quando adulta. Aos 15 anos, decidi estudar jornalismo, sonhando, sei lá, ser uma correspondente internacional, fazer grandes matérias, escrever sobre aquilo que eu acreditava ser importante e fazer diferença para o mundo. Aos 17, indo para a faculdade, estava empolgada com as aulas, ansiosa para começar a trabalhar feito uma louca em algum jornal, crente de que iria aguentar o tranco. Também estava feliz em um relacionamento que indicava durar para sempre, imaginando um futuro em que dividiria um espaço só meu com alguém que amava. Não preciso nem dizer que tudo saiu bem diferente do planejado. Não só deixei o sonho de ser uma grande jornalista de lado como estou em outra cidade, dividindo um apartamento com uma amiga, sem nenhum sinal de relacionamento ou amor no horizonte. E estou bem satisfeita com isso, ou pelo menos com parte disso.

Não sou só eu que não seguiu os planos da adolescência. Na verdade, para muitos deve ser assim – quando jovens, somos cheios de sonhos e expectativas com a vida que teremos pela frente, e, bem, geralmente estamos com a cabeça bem longe da realidade. Essa introdução toda é só para mostrar como o enredo de Gigantes, primeiro romance de Pedro Henrique Neschling, está tão próximo da realidade do jovem-adulto de hoje, que tem acesso a tantas informações, possibilidade de se conectar com tantas pessoas e lugares, que tudo parece fácil e possível, até descobrirmos que não é. Da mesma forma que eu fiz escolhas que nunca imaginei que faria, Fernando, Duda, Camila, Zidane e Lipe não se tornaram aquilo que desejavam ser.

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Cyberstorm, de Matthew Mather

cyberstorm

Tensão política, uma tempestade de neve e um ataque cibernético: uma das maiores cidades do mundo, Nova York, é derrubada e seus moradores se encontram em desespero. A comunicação começa a falhar, comida e mantimentos não chegam mais à cidade, e ainda há o boato de que muitas pessoas estão morrendo de gripe aviária, o que não pode ser confirmado nem desmentido. Às vésperas de um ano novo de frio rigoroso, todos estão presos na cidade e sem contato com o mundo, sem luz elétrica e sem água. Em Cyberstorm (tradução de Carolina Caires Coelho), Matthew Mather cria um cenário apocalíptico com esses ingredientes, e mostra como a paranoia e a falta de informação pode complicar ainda mais a sobrevivência quando o mecanismo de uma cidade começa a falhar.

Essa história é contada pelo ponto de vista de Mike, um homem de uns 30 e poucos anos que trabalha com internet e vive uma pequena crise em seu casamento: com um filho de dois anos, ele e sua mulher, filha de uma família tradicional e rica, estão se afastando aos poucos quando ela cogita voltar para a carreira de advogada. A proximidade com um vizinho que pouco o agrada levanta suspeitas de traição, que logo são eclipsadas quando Nova York começa a enfrentar o ataque cibernético. Com ajuda de Chuck, amigo e vizinho paranoico que mantém um abrigo e estoque de mantimentos em caso de ataques ou desastres, eles montam no prédio em que vivem um acampamento, ajudando mais pessoas que moram no seu andar e mantendo a mínima ordem. Algo que logo começa a chamar a atenção de gente de fora que, claro, não estão preparadas para enfrentar a neve, a fome e a falta das coisas básicas para a sobrevivência.

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