Hitler, de Ian Kershaw

6 de janeiro de 2011

Monstro. Essa é uma palavra que muitos utilizam para se referir a um dos maiores e mais impactantes nomes do século XX: Adolf Hitler. Mas a pessoa que encarnou o Führer alemão entre 1939 e 1945 precisa de muito mais palavras para que sua história seja fielmente contada. Mais precisamente de palavras que preencham 1160 páginas de uma biografia que recentemente foi lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras, mas originalmente se estende para muito mais. Hitler, do historiador Ian Kershaw, foi publicado em dois volumes entre 1998 e 2000, condensando essa grande pesquisa em apenas um livro em 2008 para esclarecer quem foi e como Hitler se consagrou líder e conquistou tantos seguidores.

Kershaw dá início à biografia a partir da infância do então futuro ditador. Mostra ao leitor sua família, as condições em que vivia e o conflito com o pai sobre seu futuro. Sua juventude foi ociosa, voltada para a arte e a música e o desejo de se tornar artista e entrar para a Escola de Artes de Viena, enquanto era cercado pelos mimos de sua mãe. E então o leitor percebe que a vida de Hitler no seu início teve mais derrotas do que conquistas: duas vezes reprovado na admissão na escola de artes e sem trabalhar, Hitler viu seu primeiro sonho desmoronar sem fazer ideia do que seria no futuro.

Desde cedo nutria opiniões fortes ligados à política, embora não fosse muito envolvido com ela. Fugindo do alistamento no exército austríaco, Hitler abandona o país e vai para Munique, onde seu destino começa a mudar. Ian Kershaw utiliza como fontes relatos feitos por pessoas próximas de Hitler – mesmo que ele nunca tenha sido realmente próximo de alguém – e sua própria obra, o livro Mein Kampf. Na parte inicial da biografia, o livro do Führer é frequentemente citado para mostrar como ele montou sua própria imagem. Enquanto o ditador afirma em Mein Kampf que sempre fora contra os judeus, Kershaw aponta que durante o tempo em que viveu em Linz, sua cidade natal, e Viena ele manteve relações amistosas com judeus e fazia negócios com eles.

A pessoa Hitler como realmente a conhecemos surge depois de ele lutar pelo exército alemão na Primeira Guerra Mundial. Kershaw procura explicar como Hitler se tornou a grande atração do partido nazista com seus discursos contra o bolchevismo soviético e a “judiaria” alemã, que das cervejarias de Munique invadiram toda a nação. O historiador deixa claro que as verdadeiras intenções de Hitler sempre foram levantar as massas, um homem nem um pouco ligado à liderança ou organização de um partido, nem quando já era líder alemão. Mas esse futuro como Führer também não era seu objetivo inicial, vindo à tona depois de sua prisão pelo fracassado golpe ao governo alemão de 1923, período em que escreveu o primeiro volume de Mein Kampf e “amadureceu” suas posições políticas.

Hitler no meio da multidão em Viena comemorando a proclamação da guerra em 1914

Kershaw retrata Adolf Hitler como uma pessoa que não aceitava ser contrariada em questão alguma e atuava conforme a conveniência da situação. Suas leituras sobre política e filosofia durante sua prisão serviram apenas para confirmar as opiniões e preconceitos já formados, e não para esclarecer assuntos ou adquirir novos conhecimentos. Seus discursos inflamados exaltando o renascimento do sentimento nacionalista e a erradicação do que prejudicaria o crescimento alemão conquistaram cada vez mais adeptos, uma fala que incitava guerras, preconceitos e destruição em uma Alemanha diminuída perante a Europa depois de sua primeira derrota.

Hitler é um relato completo do estado do governo alemão depois da Primeira Guerra Mundial até o final da Segunda. No que concerne às atitudes de Hitler na Segunda Guerra, Kershaw descreve todas as voltas diplomáticas feitas pelo ditador para conquistar aliados e efetuar seu antigo desejo de atacar a União Soviética, e a relação durante o confronto com os países do Eixo e os Aliados. E, claro, mostra todo o horror da perseguição aos judeus que o próprio ditador procurou esconder por conta das relações exteriores da Alemanha. Não tem como o leitor não se espantar com o número de judeus deportados e mortos a cada nova invasão alemã. Foram milhares de vidas perdidas por uma crença em que o próprio povo não via sentido, espantados com a violência exercida pela SS contra os judeus. Povo esse que, apesar dos dizeres de Hitler, não via propósito algum nessa luta que não fosse satisfazer os desejos sombrios de um único homem.

Além do imenso texto de Kershaw, Hitler contém fotos do ditador, de pessoas que se relacionavam com ele e imagens da Guerra que auxiliam a formar uma imagem mais clara do que o historiador conta. Mapas no início do livro ilustram todo o movimento da Segunda Guerra Mundial feito pela Alemanha, e as principais fontes bibliográficas utilizadas por Kershaw estão listadas no final do livro. A maior parte dessa bibliografia e as notas inseridas por Kershaw no texto das versões originais de Hitler foram deixadas de lado dessa edição condensada da biografia, mas o livro não deixa de oferecer um ótimo material de pesquisa para os mais interessados, sendo a maior obra sobre o ditador alemão e a mais esclarecedora.

Hitler em 5 de julho de 1940

Hipocondríaco, megalomaníaco, que agia conforme a situação para conseguir o que queria, com uma rotina nada saudável; assim foi Hitler basicamente em toda sua vida. Colocou nos judeus a culpa pela guerra que ele mesmo começou. Afundou a Alemanha cada vez mais na desgraça e destruição por não levar em conta opiniões que contradiziam a sua vontade. Hitler não mantinha amizades, escondia sua vida particular e até sua companheira, Eva Braun, do público, e explodia em fúria ao ser confrontado. Uma personagem intensa e assustadora da história mundial que deixou seu nome marcado pelas atrocidades que promoveu. Hitler dizia que poderia ser derrotado, mas que toda a Alemanha seria destruída com ele. De certa forma, foi isso o que aconteceu. Porém, a Alemanha se reergueu e, felizmente, não há como Hitler voltar das cinzas as quais pediu para ser transformado ao perceber que não venceria a sua batalha.

O leitor só pode imaginar todo o trabalho de pesquisa realizado por Ian Kershaw para reunir todos esses relatos sobre Adolf Hitler e o governo alemão para essa biografia. Hitler merece todo o esforço empregado para devorar cada página. É o presente perfeito para quem se interessa pelas Guerras Mundiais e História e um livro surpreendente pelas monstruosidades que narra. Por mais que o ditador procurasse esconder de todos quem realmente era, Kershaw conseguiu montar o perfil desse homem que tanto abalou o século XX.


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8 Comentários Deixe um comentário

  • 1. Luiza  |  6 de janeiro de 2011 às 21:31

    Que Deus não leia isso, mas toda vez que eu lembro que ele era vegetariano, ainda o considero uma pessoa melhor do que eu.

    Quer dizer, ele era vegetariano mesmo, né?

  • 2. Izze Odelli  |  6 de janeiro de 2011 às 21:38

    hauahuau

    era vegetariano sim, além de outras coisinhas que consideramos bem saudáveis (não beber e tals).

    Mas acho que o resto do que ele fez não o redime por ter salvo algumas vacas, frangos e peixes por aí….

  • 3. Tweets that mention r.izz&hellip  |  9 de janeiro de 2011 às 17:41

    [...] This post was mentioned on Twitter by Taize Odelli, Taize Odelli. Taize Odelli said: Biografia de Hitler, de Ian Kershaw, no r.izze.nhas também http://me.lt/0YkV [...]

  • 4. Fabio C M  |  16 de fevereiro de 2011 às 15:02

    Quero muito ler esse livro, mas o tempo e o dinheiro nesse caso são inimigos.

  • 5. Wagner  |  24 de fevereiro de 2011 às 13:49

    Estou lendo o livro …

    É impressionante, como o autor distrincha a figura desse ditador, que levou um pais reconhecido pela sua cultura, como pela sua arrogancia, … a uma catastrofe plena …

    Ele era tudo ou nada … um louco, orgulhoso, que se achava … e o pior … que acharam nele um salvador … todos vitimas de uma midia, que muito se assemelha a varios partidos politicos atuais … inclusive esse que nos governa…

    Infleizmente somos todos vitimas de interesses escusos …

    Bom livro … esta valendo a pena…

  • 6. RICARDO  |  8 de abril de 2011 às 00:13

    bem a foto la em cima tem nada a ver.ele so foi usar aquele bigode bem depois do fim da 1guerra.ele tinha um bigodão deve que raspar por ordem.pois nao tinha como usar a mascara contra o gas mstarda que os britanicos usavam contram os alemaes.entao a foto e falsa

  • 7. oldair  |  21 de agosto de 2011 às 19:40

    Olá gosto muito do blog, li o segredo de hitler de lothar machtan, que fala da provável vida dupla que hitler levava, alguém sabe se este livro é sensacionalista(embora mostre provas)?

  • 8. oldair  |  22 de agosto de 2011 às 19:32

    Olá Taizi! grato por esclarecer minhas dúvidas, até agora achava o blog simpático, mas demonstrando o interese da responsável por ele, merece meus parabéns, claro que isso não vale nada(?) mas ganhou um fã, abração e vou seguir por aqui!!! “descurpes os eros ” é que estou na corrida…

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