As correções, de Jonathan Franzen
24 de janeiro de 2012
De pedra em pedra se monta um castelo e de gota em gota se forma um rio. Há vários desses ditados populares que querem dizer, basicamente, que aos poucos algo se torna grande. Grande o bastante para se tornar perceptivelmente bom ou, em muitos casos, insuportável. A rotina de Alfred e Enid Lambert é assim: nas pequenas ações de cada um, forma-se um ambiente opressor, deprimente e decadente. As pequenas torturas diárias que o casal de idosos confere um ao outro extrapolam a vida conjugal e estendem seus tentáculos para os três filhos. Eles, com suas próprias vidas, tão diferentes da dos pais, vão alimentando hábitos, pensamentos e escolhas que só contribuem para uma existência dolorosa e vazia enquanto divergem sobre a razão e o futuro do velho casal.
Em As correções, Jonathan Franzen tece pacientemente uma teia repleta dessas pequenas torturas que afastam e aproximam a família Lambert pelos dias que antecedem um encontro de Natal ansiosamente aguardado apenas por Enid, mulher conservadora que sente prazer em julgar a índole daqueles que vivem à sua volta, sem poupar críticas ao comportamento de seus filhos e à enfermidade de seu marido. Alfred sofre com a perda de sua sanidade e força física sugadas pelo mal de Parkinson; Gary com uma depressão não declarada e a tensão crescente com sua mulher e filhos; Chip com o desemprego depois de um caso amoroso com uma aluna, um roteiro mal recebido e uma oportunidade financeira na Lituânia; e Denise com seus relacionamentos confusos e desastrosos. Cada um sente o quão doloroso é estarem reunidos e sendo julgados e testados pelas expectativas que um tem do outro.
Jonathan Franzen aprofunda as personalidades e os problemas de todas as personagens explorando, em detalhes, a história de cada um e a maneira com que se relacionam. É como se o narrador se fundisse a eles sutilmente para assim mostrar ao leitor seus pensamentos mais íntimos, e a cada nova informação liberada, mais ainda se percebe a agonia das personagens e a certeza de que, uma hora ou outra, todo esse material inflamável reunido em um espaço tão pequeno entrará em combustão. A família tradicional, próspera e bonita que Enid tanto lutou para construir à imagem de seus vizinhos de classe média alta irá desabar permanentemente. Mas Franzen consegue, de algum modo, manter os pedaços dessa família unidos e o leitor atento a todo esse drama.
A união está na vontade que sentem de acertar as contas uns com os outros para, assim, corrigirem todos os problemas que atrapalham suas vidas e suas relações. Na vontade, na verdade, dos filhos que pensam e vivem de forma tão diferente de seus pais, que seguiram rumos de certa forma contrários daquilo que Enid, principalmente, esperava de sua família que representa o típico lar norte-americano. A impossibilidade de ela aceitar essas diferenças, jogando aos ares seus julgamentos antiquados tentando manter a imagem que sempre sonhou que sua família deveria ostentar de riqueza, requinte, prosperidade e união. O que seu marido não ajuda nem um pouco conforme é mais e mais consumido pela doença degenerativa.
O materialismo, a sexualidade, o egocentrismo, a competitividade e a teimosia de cada membro dessa família é trabalhado por Franzen para atingir e causar reações que revelem e incrementem ainda mais os seus problemas. O romance todo é tomado por essas relações conflituosas muito bem apresentadas ao leitor e que os fazem reconhecer e tomar partido dessas personalidades, sem conseguir vislumbrar um desfecho que não seja trágico. Surpreendentemente, ele encerra essa história de forma bem pacífica, com as correções devidamente instauradas nessa família, mas isso não significa que todos tenham seus finais felizes. Afinal, quanto pode durar esses tempos pacíficos até a próxima crise?
As correções é um romance dividido entre a complexidade do tema – as relações familiares ameaçadas pela sua decadência – e a facilidade da leitura, que rapidamente conquista o leitor com os dramas da família Lambert, traga toda a sua atenção para a tristeza e incompreensão que habitam o livro. Nenhuma família é perfeita, não o tempo todo, e o contraste entre as expectativas e a rigidez de Enid e Alfred com a liberdade ansiada pelos seus filhos dá vida ao livro. É por isso que essa ficção parece tão verdadeira e humana.
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Arquivado em: Resenhas


4 Comentários Deixe um comentário
1.
Matheus | 24 de janeiro de 2012 às 21:32
Então Izze
Eu digo que vou comprar os livros, vou comprar e na verdade fica lá no fim da lista, mas eu achei este livro tão… Éramos Seis feelings o____o Eu leria, eu compraria, parece tão sincero, e é muito interessante ver isso porque provavelmente, Enid não era tão chata (pra não dizer coisa pior) numa intenção ruim, mas querendo fazer os filhos se encaminharem – essa técnica é tão arcaicamente boba, mas fazer o quê? Mandar prum hospício? rs
Beijo
Matheus
2.
Camila | 29 de janeiro de 2012 às 17:01
Curto muito o Franzen. ‘Liberdade’ dele é sensacional. Parece que ele confirmou presença na Flip — o que torna a ida até lá ainda melhor. A propósito: ano passado a barraquinha de pastéis resistia! É uma boa opção mesmo.
Adorei a resenha. Conhecia o blog por uma matéria que saiu na Zero Hora.
Vou voltar mais vezes!
3.
Gustavo Magno | 14 de fevereiro de 2012 às 23:45
Franzen é muito chato. Seu último livro, Liberdade, foi colocado pela crítica como o céu na terra. Parei na página 300 decidido a não olhar nem na capa. Esse autor é a prova de como somos influenciados pela crítica. Algumas vezes dá certo mas outras vezes a coisa degenera num fiasco
4.
Izze Odelli | 15 de fevereiro de 2012 às 08:31
Eu desanimei pra ler Liberdade porque muitos amigos leram e não acharam nada demais. Mas As correções realmente achei muito bom, daí voltou a vontade de ler.
Mas nem precisa de “prova” de que somos influenciados pela crítica. É pra isso que ela está aí, não? Dar uma ideia do que poderíamos ler e gerar essa curiosidade. O errado é pensar que a crítica está sempre certa. Nunca está. Seja pra dizer que é bom não sendo ou pra dizer que é ruim não sendo. Leitura é uma atividade individual, não só porque a crítica diz que é bom que realmente vai ser, e vice-versa. Problema é achar que é isso ou assado só porque o crítico da vez falou que era =P
Obrigada pelo comentário! =D
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