
<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>r.izze.nhas</title>
	<atom:link href="http://rizzenhas.com/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://rizzenhas.com</link>
	<description>Resenhas e aleatoriedades literárias</description>
	<lastBuildDate>Wed, 22 Feb 2012 00:50:35 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.3.1</generator>
		<item>
		<title>Habitante irreal, de Paulo Scott</title>
		<link>http://rizzenhas.com/2012/02/13/resenha-habitante-irreal-de-paulo-scott/</link>
		<comments>http://rizzenhas.com/2012/02/13/resenha-habitante-irreal-de-paulo-scott/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 00:44:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Izze Odelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Alfaguara]]></category>
		<category><![CDATA[Habitante irreal]]></category>
		<category><![CDATA[literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Scott]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://rizzenhas.com/?p=2797</guid>
		<description><![CDATA[Vai ser difícil tentar definir como essa história passou da desilusão com a política e a vida estudantil para, no fim, o resgate das origens indígenas do Brasil. Habitante irreal, romance de Paulo Scott publicado pelo selo Alfaguara, parece se transformar em um livro totalmente diferente do que é em suas primeiras páginas, mesmo mantendo a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/02/habitante-irreal.png"><img class="alignleft size-medium wp-image-2798" title="habitante-irreal" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/02/habitante-irreal-195x300.png" alt="" width="195" height="300" /></a>Vai ser difícil tentar definir como essa história passou da desilusão com a política e a vida estudantil para, no fim, o resgate das origens indígenas do Brasil. <em>Habitante irreal</em>, romance de Paulo Scott publicado pelo selo Alfaguara, parece se transformar em um livro totalmente diferente do que é em suas primeiras páginas, mesmo mantendo a sua estrutura do início ao fim, com o mesmo tom. Com uma transição sutil da história de uma personagem a outra, quase como uma metamorfose do texto, algo que reconhecemos como familiar – a narração, os cenários – se apresenta totalmente novo conforme os capítulos e o tempo passam.<span id="more-2797"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Paulo – um dos protagonistas, não o autor – é um estudante de direito de Porto Alegre, militante do PT que estagia em uma banca de advogados. Essa história começa em 1989, sendo narrada em uma grande nota de rodapé, recurso que Scott repete em outros momentos do livro. Voltando de um congresso do partido realizado em Pelotas, Paulo nota a total perda de interesse pelo seu estágio, a vida de estudante e, principalmente, pelas atividades do partido que se prepara para lançar Lula nas eleições para a presidência do país. Dirigindo de volta para Porto Alegre, na beira da BR-116 – ou cento e dezesseis, como o autor prefere escrever, sempre por extenso –, ele encontra Maína: uma jovem índia de 14 anos, quase 15, que mora à beira da estrada com sua avó e duas irmãs, agarrada a velhos jornais e revistas debaixo da chuva. E Paulo a resgata, ou melhor, inicia o declínio da vida da moça.</p>
<p style="text-align: justify;">Tímida e receosa, Maína passa a conhecer a cidade através de Paulo, que a carrega para os lugares que frequenta sem saber realmente o que ela conhece e o que é novidade. E desse encontro na beira da BR, os dois passam a se envolver com mais intimidade, o branco universitário de 21 anos com a índia adolescente, até as circunstâncias os separarem: ele abandona tudo em Porto Alegre e vai para Londres, ela continua na sua barraca à beira da estrada, grávida e desamparada. Não, Paulo não é um mau caráter, um aproveitador da inocência de Maína, ele procurou agir com as mais nobres das intenções, esperando dar para ela melhores condições para viver. Mas até que ponto o que ele esperava fazer pela índia seria realmente uma ajuda?</p>
<p style="text-align: justify;">Paulo Scott constrói parágrafos como blocos de textos, fazendo o narrador expor o que há de mais profundo das suas personagens, apresentando novas pessoas no livro antes delas realmente tomarem forma e importância dentro dessa história, alertando o leitor para o momento em que elas irão entrar em cena. E assim, aos poucos, Scott direciona a atenção da leitura para outros, como Luisa e Henrique, um casal de acadêmicos ligados às questões indígenas que adotam Donato, o filho de Maína. Esquecemos de Paulo em Londres, da família abandonada na beira da estrada, e acompanhamos o rápido crescimento de Donato em São Paulo em uma boa escola, recebendo a educação que poucos, índios ou brancos, tiveram a chance de ter. Se transformando, como ele mesmo alega mais tarde, no “índio menos índio” que já existiu. Parece que esse é um final feliz para o fruto de um relacionamento trágico, mas não é. As origens de Donato retornam, se revelam a ele e causam uma mudança drástica nos seus ideais.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse ponto o leitor está completamente envolvido nos dramas que se instauram na vida de Donato, sem mal notar a passagem dos anos. Do Fusca e walkman do início dos anos 1990, já estamos usando a internet, conversando pelo Skype, gravando tudo o que há de interessante com nossos celulares. A passagem de tempo é sutil, é familiar, a forma como o autor descreve a Porto Alegre para onde Donato volta, a cidade que ela é agora, faz parecer ainda mais que o leitor está assistindo a tudo o que acontece de camarote. A leitura flui rápida, sem barreiras, mas talvez essa velocidade da narrativa não permita que o leitor assimile os fatos com mais calma, para que ele receba com maior impacto o que se revela. Algumas passagens importantes, principalmente ao fim do livro, parecem se suceder com rapidez demais, sem maiores detalhes e sem despertar a comoção esperada. Contudo, isso não chega a atrapalhar de forma irreversível a históra.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Habitante irreal</em> dividiu muito as opiniões. De um lado, foi considerado um romance que mostra que a literatura brasileira está bem, saudável, criativa e funcionando a todo vapor. Outros enxergaram no livro mais pedantismo do que boa narrativa. Eu encontrei um livro instigante, com uma boa estrutura, que consegue abarcar por completo os anos que atravessa, as mudanças pelas quais as personagens passam, registrando a época e, principalmente, a procura pela real identidade e preservação das origens, que no início já parecem não pertencer a lugar algum – uma barraca na beira da estrada pode ser considerada um lar? Os índios podem chamar esse espaço de sua “terra”? Se não, qual é a sua terra, então? Nenhuma personagem, enfim, parece ter um local verdadeiro para se fixar, seja o índio ou o homem da cidade. Mas pelo menos essas histórias repletas de reviravoltas estão bem registradas nas páginas deste livro.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://rizzenhas.com/2012/02/13/resenha-habitante-irreal-de-paulo-scott/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>4</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Se eu olhar pra trás, de Ademir Furtado</title>
		<link>http://rizzenhas.com/2012/02/08/resenha-se-eu-olhar-pra-tras-de-ademir-furtado/</link>
		<comments>http://rizzenhas.com/2012/02/08/resenha-se-eu-olhar-pra-tras-de-ademir-furtado/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 09 Feb 2012 00:49:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Izze Odelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Ademir Furtado]]></category>
		<category><![CDATA[Dublinense]]></category>
		<category><![CDATA[literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Se eu olhar pra trás]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://rizzenhas.com/?p=2791</guid>
		<description><![CDATA[Edimar é um funcionário público de Porto Alegre prestes a se aposentar. Leva aquele tipo de vida monótona, sem sobressaltos. Tranquilidade e estabilidade, para ele, sempre foram o mais importante – o que o levou a largar a carreira de professor de História. Com uma filha já casada, uma neta e sua mulher, ele mantém [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/02/se-eu-olhar-pra-tras.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-2792" title="se-eu-olhar-pra-tras" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/02/se-eu-olhar-pra-tras-204x300.jpg" alt="" width="204" height="300" /></a>Edimar é um funcionário público de Porto Alegre prestes a se aposentar. Leva aquele tipo de vida monótona, sem sobressaltos. Tranquilidade e estabilidade, para ele, sempre foram o mais importante – o que o levou a largar a carreira de professor de História. Com uma filha já casada, uma neta e sua mulher, ele mantém uma tradicional família de classe média da capital, daquelas que os vizinhos não encontrariam uma fofoca sequer para cochicharem no pátio do prédio próximo ao shopping Praia de Belas. Resumindo, a vida de Edimar não conta com grandes emoções para preencher um livro. Até ele receber o telefonema de um estranho de Santa Maria, sua cidade natal, que causa um impacto inimaginável no seu cotidiano pacato.<span id="more-2791"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Se eu olhar pra trás</em>, publicado pela editora Dublinense, Ademir Furtado<strong></strong>faz seu protagonista voltar ao passado motivado por um mistério que envolve seu pai, um conhecido professor universitário da cidade no interior do Rio Grande do Sul. A ligação de um antigo conhecido à procura de alguns documentos, deixados a uma assistente, leva o funcionário público a fazer descobertas sobre a vida do pai. Edimar começa a relembrar sua própria trajetória do momento em que se mudou para a capital, nos anos 1970, até 2003, quando inicia esse romance. Sem seguir ordem cronológica, o personagem resgata as memórias de seus tempos de universitário, de professor e do começo de seu único e recatado relacionamento com a esposa.</p>
<p style="text-align: justify;">As lembranças, o passado do pai e a espera pela aposentadoria causam uma certa angústia, uma insatisfação com a vidinha parada, que gira em torno de passeios nos arredores de casa, leituras no sofá de sua biblioteca e aos noticiários que assiste na sala, sempre recusando convites para festas e reuniões. Ou, como em certo ponto um amigo o critica: “Tu vives a vida da tua mulher, da tua filha, da tua neta. E agora a do teu pai, que já morreu há vinte anos.” Esse incômodo se instaura no protagonista, que passa a querer viver novas experiências e sair da zona de conforto em que sempre esteve.</p>
<p style="text-align: justify;">Ademir Furtado, que igual ao personagem também é funcionário público da capital –, reparem que o nome Edimar é um anagrama do nome do autor – apresenta toda essa história apostando na descrição do cenário político das épocas. Nas primeiras páginas, o personagem assiste à posse de Lula, em todo o resto do livro apresenta conflitos ligados à ditadura militar e às mudanças pelas quais Porto Alegre passava quando de sua chegada. A cidade, aliás, é incansavelmente descrita, suas ruas, seus monumentos, os cartões-postais e lugares que todo morador ou visitante já conhecem. Com isso, ele contextualiza o leitor no tempo através das imagens que descreve. Mas apesar do cuidado com a construção – ou com o retrato – desses cenários, Furtado não leva o leitor a se envolver realmente com sua história.</p>
<p style="text-align: justify;">Narrando em terceira pessoa, ele não chega a solidarizar o leitor com os problemas que rondam a vida de Edimar. Seu texto não aproveita totalmente a carga psicológica que o protagonista esconde – descobertas de um passado já enterrado, revoluções de uma vida pacata e o impacto disso em sua família. Ele se concentra nas simples descrições de gestos e diálogos, passando um pouco do núcleo histórico ligado às situações que cria – ele consegue ir além no capítulo em que conta como Edimar conhece sua esposa, em que o protagonista está ao mesmo tempo em uma crise profissional. O texto não traz grandes revoluções, é uma narrativa convencional com um enredo interessante, mas que poderia render mais.</p>
<p style="text-align: justify;">A leitura de <em>Se eu olhar pra trás</em> deixa a sensação de falta, de um buraco aberto e um mistério não resolvido – aquilo que envolve o passado do seu pai não é esclarecido ao todo. Dramas familiares rendem ótimos livros, histórias reveladoras e envolventes, ainda mais quando impactam seus membros anos depois, obrigando-os a voltarem ao passado esquecido. Mas dessa vez, como se no livro faltasse uma peça, não houve a definitiva conquista do leitor.</p>
<p style="text-align: center;">Conheça o catálogo da <strong>Dublinense</strong></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.dublinense.com.br/"><img class="aligncenter size-full wp-image-2400" title="Dublinense" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2011/02/logodublinense.gif" alt="" /></a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://rizzenhas.com/2012/02/08/resenha-se-eu-olhar-pra-tras-de-ademir-furtado/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Diário da queda, de Michel Laub</title>
		<link>http://rizzenhas.com/2012/02/06/resenha-diario-da-queda-de-michel-laub/</link>
		<comments>http://rizzenhas.com/2012/02/06/resenha-diario-da-queda-de-michel-laub/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 06 Feb 2012 21:42:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Izze Odelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Companhia das Letras]]></category>
		<category><![CDATA[Diário da queda]]></category>
		<category><![CDATA[literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Michel Laub]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://rizzenhas.com/?p=2783</guid>
		<description><![CDATA[Em que momento da vida paramos para reavaliar aquilo pelo que passamos? O que desencadeia essa autorreflexão sobre o que fizemos em vida e o que causamos a outras pessoas, como tratamos aqueles com quem convivemos? Qualquer um deve passar por um desses momentos, por algo decisivo que desencadeia a reflexão e nos leva repensar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/02/diariodaqueda.jpeg"><img class="alignleft size-medium wp-image-2785" title="diariodaqueda" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/02/diariodaqueda-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Em que momento da vida paramos para reavaliar aquilo pelo que passamos? O que desencadeia essa autorreflexão sobre o que fizemos em vida e o que causamos a outras pessoas, como tratamos aqueles com quem convivemos? Qualquer um deve passar por um desses momentos, por algo decisivo que desencadeia a reflexão e nos leva repensar tudo o que sabemos sobre a vida rememorando sobre o passado, para, assim, criar a base de um futuro. Em <em>Diário da queda</em>, romance de <strong>Michel Laub</strong> lançado pela Companhia das Letras no ano passado, é uma notícia a dar ao seu pai que leva o protagonista-narrador a escrever sobre os pontos de virada na sua vida, na de seu pai e de seu avô.<span id="more-2783"></span></p>
<p style="text-align: justify;">A primeira virada ocorre na adolescência. A história começa na Porto Alegre dos anos 1980, durante o aniversário de 13 anos de um colega que, diferente dele e de seus outros amigos da escola, não é judeu. João é um<em>gói</em> estudante de uma escola de judeus que, para se sentir um pouco mais próximo de seus colegas, ganha um falso Bar Mitzvah do pai. No momento em que o narrador e seus amigos devem levantar o aniversariante por 13 vezes, na última deixam-no cair propositalmente, um daqueles atos infantis e cruéis que terminam em remorso e culpa. A tal queda custa a João meses de recuperação e fisioterapia, e ao narrador a sua consciência.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato de ele e seus colegas terem achado legal praticarem tal ato com João é inexplicável, pois como descendentes daqueles que sofreram com a perseguição de Hitler poderiam ser capazes de tratar um colega de forma tão cruel só por não fazer parte de tal cultura? O remorso do protagonista o leva a começar uma grande amizade com a vítima dessa queda, e nesse momento ele praticamente nega a sua origem, a religião e seus antigos colegas. E aí segue esse ponto de virada na vida dele: em uma discussão com o pai, descobre que seu avô, que nunca conheceu, esteve em Auschwitz. E que esse foi um momento tão doloroso em sua vida que ele procurou de todas as formas apagá-lo, como seu pai descobre depois de sua morte. O avô escreveu durante os últimos anos de vida uma espécie de enciclopédia utópica, em que apaga toda e qualquer menção à Auschwitz, à guerra, às fugas, dores, doenças e incomodações que ele teve em vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o pai do narrador, esse é o momento em que ele se sente mais próximo daquele que o criou, percebendo na ausência desses relatos de sobrevivente toda a dor que esse momento da História causou a ele, mantendo viva a memória dos campos de concentração para que todos os judeus se lembrem do mal que sofreram – citando sempre Primo Levi e seu livro <em>É isto um homem?</em>, em que o escritor relatou sua passagem por Auschwitz, lendo através dele tudo aquilo que o pai escondeu. Mais uma história sobre campos de concentração? Mais um livro sobre suas marcas? De um lado sim, mas <em>Diário da queda</em> vai além disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Laub fala de um ciclo. Um ciclo familiar marcado pela História, por lembranças, memórias que não marcam só uma, duas pessoas, uma família, mas também uma cultura inteira, o mundo. Esse ciclo se fecha, claro, no final do livro, mas as pistas estão aí desde o início: eventos decisivos da vida de seu avô, seu pai e dele mesmo. Eventos que se incrustaram na memória, perturbantes, carregados por eles por toda a vida. Que possuem um impacto cultural, mas são vistos também individualmente, registrados em papel para que não se percam. Os cadernos do avô, a queda de João e a briga com o pai foram momentos em que essas marcas foram relembradas, e é o que Michel Laub apresenta ao leitor por todo o livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Narrado em grande parte através de verbetes, o autor explora o relacionamento do narrador com o seu passado familiar. Não há ordem, não há lógica aparente que organize esses verbetes, eles surgem como se fossem o seu fluxo de pensamento, indo e vindo no tempo, recortando e colando momentos. Repete-se à exaustão, copia trechos do que seu pai escreveu, do que o avô inventou, como aquilo que se agarra à memória e sempre retorna. Como se não houvesse edição. O livro é um monólogo, um diário desencadeado por velhas memórias, que traz o passado de volta à luz e expõe seus traumas não pela nostalgia, dor ou agonia, mas pelo futuro. Para que as próximas gerações conheçam sua história e a entenda, perceba a importância desse passado doloroso.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Diário da queda</em> foi considerado por muitos leitores um dos melhores livros publicados no ano passado, e sou obrigada a concordar. Em poucos romances o leitor pode se sentir tão íntimo e próximo de uma história como acontece aqui, por mais que a realidade que ele viva seja tão diferente dessa apresentada por Laub. O autor coloca muito bem nas páginas toda a carga emocional das suas personagens e, melhor ainda, faz isso passar para o leitor, que compreende parte da dimensão daquilo que chocou o mundo e ainda rende assunto para mais outras histórias.</p>
<p style="text-align: center;">Conheça o catálogo da <strong>Companhia das Letras</strong></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.companhiadasletras.com.br/"><img class="aligncenter size-full wp-image-2400" title="Companhia das Letras" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2011/02/ciadasletras.gif" alt="" /></a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://rizzenhas.com/2012/02/06/resenha-diario-da-queda-de-michel-laub/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges</title>
		<link>http://rizzenhas.com/2012/01/30/resenha-o-livro-dos-seres-imaginarios-de-jorge-luis-borges/</link>
		<comments>http://rizzenhas.com/2012/01/30/resenha-o-livro-dos-seres-imaginarios-de-jorge-luis-borges/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 22:44:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Izze Odelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Companhia das Letras]]></category>
		<category><![CDATA[fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[Jorge Luis Borges]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[O livro dos seres imaginários]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://rizzenhas.com/?p=2777</guid>
		<description><![CDATA[Quando falamos de Jorge Luis Borges, lembramos em grande parte do realismo fantástico e de suas contribuições para a literatura mundial. Um dos autores latino-americanos mais conhecidos e aclamados é nome obrigatório em qualquer lista digna de leitura – e por isso mesmo já faz tempo que quis incluí-lo na minha. Mas além da produção literária, sabemos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/01/o-livro-dos-seres-imaginarios.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-2778" title="o-livro-dos-seres-imaginarios" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/01/o-livro-dos-seres-imaginarios-197x300.jpg" alt="" width="197" height="300" /></a>Quando falamos de <strong>Jorge Luis Borges,</strong> lembramos em grande parte do realismo fantástico e de suas contribuições para a literatura mundial. Um dos autores latino-americanos mais conhecidos e aclamados é nome obrigatório em qualquer lista digna de leitura – e por isso mesmo já faz tempo que quis incluí-lo na minha. Mas além da produção literária, sabemos que o escritor, falecido em 1986, era um grande estudioso da literatura e línguas anglo-saxãs – aprendeu inglês com sua avó e daí vieram suas primeiras leituras. A literatura clássica, lendas e histórias vindas da Europa eram seu material de estudo, e é claro que seu trabalho como estudioso também está disponível para quem quiser ler. Como <em>O livro dos seres imaginários</em>, em que Borges enumera um grande número de criaturas mágicas que figuram nas mais variadas histórias contadas através dos tempos.<span id="more-2777"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Escrito com a colaboração de <strong>Margarita Guerrero</strong>, esse compêndio reúne 116 criaturas vindas tanto da literatura quanto de lendas, mitos e religiões. São seres estranhos criados pela mente fantasiosa do homem, e Borges pesquisa em antigas fontes para tentar resgatar suas origens e diversas descrições. Organizados em verbetes breves, Borges usa as palavras de suas próprias fontes para, por vezes, descrevê-los. Assim, apresenta essas criaturas fantásticas através de C. S. Lewis, Franz Kafka, Edgar Allan Poe, resgata escritos de Shakespeare, Homero, Virgílio, conta-nos histórias de Confúcio e Plínio. O livro, então, não é apenas uma lista com descrições simples desses seres imaginários, mas uma reunião de grandes autores e histórias unidos por essas criaturas.</p>
<p style="text-align: justify;">Borges explica bem o que a edição reúne: “O nome deste livro justificaria a inclusão do príncipe Hamlet, do ponto, do traço, da superfície, do hipercubo, de todas as palavras genéricas e, talvez, de cada um de nós e da divindade. Em suma, de quase todo o universo inteiro. Ativemo-nos, contudo, ao que é imediatamente sugerido pela locução ‘seres imaginários’, compilamos um manual dos estranhos entes engendrados, ao longo do tempo e do espaço, pela fantasia dos homens”. Assim, somos apresentados a fantásticas criaturas que surgem, em sua maioria, para explicarem acontecimentos e fenômenos que, da época de suas invenções, eram inexplicáveis para o homem.</p>
<p style="text-align: justify;">É o que se pode dizer sobre os animais dos espelhos, que viviam em um mundo diferente de tudo o que a Terra é, mas que, ao invadirem a terra dos homens, são trancados novamente dentro de espelhos e condenados a repetir e refletir a imagem de nosso mundo. E também a fênix, a conhecida ave que ressurge das cinzas, que é citada como prova de que a ressurreição é possível; e a salamandra, o animal que vive no fogo e mostra que os corpos podem sim viverem nas chamas eternas do inferno. Há seres tão grandes que é impossível tentar visualizar suas figuras, como o Bahamut, uma espécie de peixe que sustenta todo o universo: “De hipopótamo ou elefante transformaram-no em peixe que se mantém sobre uma água sem fundo e sobre o peixe imaginaram um touro e sobre o touro uma montanha feita de rubi e sobre a montanha um anjo e sobre o anjo seis infernos e sobre os infernos a Terra e sobre a Terra sete céus”.</p>
<p style="text-align: justify;">Das figuras que todos já encontramos em lendas e livros de fantasia, como as ninfas, sereias, trolls, unicórnios, centauros e esfinges, temos ainda contato com outros seres tão estranhos que suas formas são difíceis de serem descritas. O Odradek, por exemplo, cuja própria origem da palavra, segundo Kafka, é desconhecida – e aqui quem apresenta essa criatura mágica é somente ele. O Odradek, ele diz, “tem o aspecto de um fuso de linha, plano e em forma de estrela, e a verdade é que parece feito de linha, mas de pedaços cortados de linha, velhos, enredados e misturados, de diferentes tipos e cores. Não é apenas um fuso; do centro da estrela sai uma vareta transversal, e outra vareta se articula a essa em ângulo reto.” Uma descrição simples de uma criatura difícil de imaginar se movendo pela casa ou, inclusive, falando.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O livro dos seres imaginários</em> não é apenas uma reunião cuidadosa dessas entidades criadas pela imaginação humana. Ele mostra o quanto essa imaginação vai longe, criando coisas tão maravilhosas, assustadoras, grandiosas e complexas. Por mais que tudo seja pura invencionice, são criaturas que fazem parte de nosso mundo, povoando as histórias desde a antiguidade e de lá trazem um conhecimento único, impossível de encontrar na realidade como a conhecemos. Borges, é claro, não coloca toda e qualquer criatura fantástica já criada dentro desse livro, pois a criatividade pode ir ainda mais além, quiça até no próprio passado resida algum outro ser imaginário que se perdeu com o tempo, fora o que ainda é criado a cada novo ano. Mas essas 116 criaturas que ele e Margarita colocaram aqui já são uma bela reunião do que a fantasia é capaz de proporcionar.</p>
<p style="text-align: center;">Conheça o catálogo da <strong>Companhia das Letras</strong></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.companhiadasletras.com.br/"><img class="aligncenter size-full wp-image-2400" title="Companhia das Letras" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2011/02/ciadasletras.gif" alt="" /></a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://rizzenhas.com/2012/01/30/resenha-o-livro-dos-seres-imaginarios-de-jorge-luis-borges/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>4</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>As correções, de Jonathan Franzen</title>
		<link>http://rizzenhas.com/2012/01/24/resenha-as-correcoes-de-jonathan-franzen/</link>
		<comments>http://rizzenhas.com/2012/01/24/resenha-as-correcoes-de-jonathan-franzen/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 24 Jan 2012 21:34:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Izze Odelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[As correções]]></category>
		<category><![CDATA[Companhia das Letras]]></category>
		<category><![CDATA[Jonathan Franzen]]></category>
		<category><![CDATA[literatura norte-americana]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://rizzenhas.com/?p=2770</guid>
		<description><![CDATA[De pedra em pedra se monta um castelo e de gota em gota se forma um rio. Há vários desses ditados populares que querem dizer, basicamente, que aos poucos algo se torna grande. Grande o bastante para se tornar perceptivelmente bom ou, em muitos casos, insuportável. A rotina de Alfred e Enid Lambert é assim: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/01/as-correcoes.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-2771" title="as correcoes" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/01/as-correcoes-205x300.jpg" alt="" width="205" height="300" /></a>De pedra em pedra se monta um castelo e de gota em gota se forma um rio. Há vários desses ditados populares que querem dizer, basicamente, que aos poucos algo se torna grande. Grande o bastante para se tornar perceptivelmente bom ou, em muitos casos, insuportável. A rotina de Alfred e Enid Lambert é assim: nas pequenas ações de cada um, forma-se um ambiente opressor, deprimente e decadente. As pequenas torturas diárias que o casal de idosos confere um ao outro extrapolam a vida conjugal e estendem seus tentáculos para os três filhos. Eles, com suas próprias vidas, tão diferentes da dos pais, vão alimentando hábitos, pensamentos e escolhas que só contribuem para uma existência dolorosa e vazia enquanto divergem sobre a razão e o futuro do velho casal.<span id="more-2770"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>As correções</em>, <strong>Jonathan Franzen</strong> tece pacientemente uma teia repleta dessas pequenas torturas que afastam e aproximam a família Lambert pelos dias que antecedem um encontro de Natal ansiosamente aguardado apenas por Enid, mulher conservadora que sente prazer em julgar a índole daqueles que vivem à sua volta, sem poupar críticas ao comportamento de seus filhos e à enfermidade de seu marido. Alfred sofre com a perda de sua sanidade e força física sugadas pelo mal de Parkinson; Gary com uma depressão não declarada e a tensão crescente com sua mulher e filhos; Chip com o desemprego depois de um caso amoroso com uma aluna, um roteiro mal recebido e uma oportunidade financeira na Lituânia; e Denise com seus relacionamentos confusos e desastrosos. Cada um sente o quão doloroso é estarem reunidos e sendo julgados e testados pelas expectativas que um tem do outro.</p>
<p style="text-align: justify;">Jonathan Franzen aprofunda as personalidades e os problemas de todas as personagens explorando, em detalhes, a história de cada um e a maneira com que se relacionam. É como se o narrador se fundisse a eles sutilmente para assim mostrar ao leitor seus pensamentos mais íntimos, e a cada nova informação liberada, mais ainda se percebe a agonia das personagens e a certeza de que, uma hora ou outra, todo esse material inflamável reunido em um espaço tão pequeno entrará em combustão. A família tradicional, próspera e bonita que Enid tanto lutou para construir à imagem de seus vizinhos de classe média alta irá desabar permanentemente. Mas Franzen consegue, de algum modo, manter os pedaços dessa família unidos e o leitor atento a todo esse drama.</p>
<p style="text-align: justify;">A união está na vontade que sentem de acertar as contas uns com os outros para, assim, corrigirem todos os problemas que atrapalham suas vidas e suas relações. Na vontade, na verdade, dos filhos que pensam e vivem de forma tão diferente de seus pais, que seguiram rumos de certa forma contrários daquilo que Enid, principalmente, esperava de sua família que representa o típico lar norte-americano. A impossibilidade de ela aceitar essas diferenças, jogando aos ares seus julgamentos antiquados tentando manter a imagem que sempre sonhou que sua família deveria ostentar de riqueza, requinte, prosperidade e união. O que seu marido não ajuda nem um pouco conforme é mais e mais consumido pela doença degenerativa.</p>
<p style="text-align: justify;">O materialismo, a sexualidade, o egocentrismo, a competitividade e a teimosia de cada membro dessa família é trabalhado por Franzen para atingir e causar reações que revelem e incrementem ainda mais os seus problemas. O romance todo é tomado por essas relações conflituosas muito bem apresentadas ao leitor e que os fazem reconhecer e tomar partido dessas personalidades, sem conseguir vislumbrar um desfecho que não seja trágico. Surpreendentemente, ele encerra essa história de forma bem pacífica, com as correções devidamente instauradas nessa família, mas isso não significa que todos tenham seus finais felizes. Afinal, quanto pode durar esses tempos pacíficos até a próxima crise?</p>
<p style="text-align: justify;"><em>As correções</em> é um romance dividido entre a complexidade do tema – as relações familiares ameaçadas pela sua decadência – e a facilidade da leitura, que rapidamente conquista o leitor com os dramas da família Lambert, traga toda a sua atenção para a tristeza e incompreensão que habitam o livro. Nenhuma família é perfeita, não o tempo todo, e o contraste entre as expectativas e a rigidez de Enid e Alfred com a liberdade ansiada pelos seus filhos dá vida ao livro. É por isso que essa ficção parece tão verdadeira e humana.</p>
<p style="text-align: center;">Conheça o catálogo da <strong>Companhia das Letras</strong></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.companhiadasletras.com.br/"><img class="aligncenter size-full wp-image-2400" title="Companhia das Letras" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2011/02/ciadasletras.gif" alt="" /></a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://rizzenhas.com/2012/01/24/resenha-as-correcoes-de-jonathan-franzen/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>4</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Crônica de um vendedor de sangue, de Yu Hua</title>
		<link>http://rizzenhas.com/2012/01/17/resenha-cronica-de-um-vendedor-de-sangue-de-yu-hua/</link>
		<comments>http://rizzenhas.com/2012/01/17/resenha-cronica-de-um-vendedor-de-sangue-de-yu-hua/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 17 Jan 2012 12:38:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Izze Odelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Companhia das Letras]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica de um vendedor de sangue]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Chinesa]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Yu Hua]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://rizzenhas.com/?p=2760</guid>
		<description><![CDATA[O dinheiro conseguido com sangue é sagrado. Nos campos da China do final dos anos 1950, o homem que vendia seu sangue era visto como forte, saudável, um bom partido para as filhas dos camponeses. Isso porque possuía sangue em abundância e bom o suficiente para receber por ele. Já nas cidades, o sangue é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/01/Cronica-de-Um-Vendedor-de-Sangue.jpg"><img class="size-medium wp-image-2763 alignleft" title="Cronica-de-Um-Vendedor-de-Sangue" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/01/Cronica-de-Um-Vendedor-de-Sangue-199x300.jpg" alt="" width="199" height="300" /></a>O dinheiro conseguido com sangue é  sagrado. Nos campos da China do final dos anos 1950, o homem que vendia  seu sangue era visto como forte, saudável, um bom partido para as filhas  dos camponeses. Isso porque possuía sangue em abundância e bom o  suficiente para receber por ele. Já nas cidades, o sangue é algo tão  sagrado que vendê-lo é quase como dar a própria vida. O que aqui  chamamos de ato solidário, doar para aqueles que necessitam, nessa China  constitui um mercado negro em que as pessoas davam sua energia em troca  de dinheiro – e precisavam, inclusive, levar mimos ao “Chefe de Sangue”  para que ele aceitasse comprá-lo. E o que deveria ser feito  esporadicamente vira um hábito que suga a vida das pessoas  transformando-as em vítimas.<span id="more-2760"></span></p>
<p style="text-align: justify;">O mercado negro de sangue da China é o ponto de partida de <strong>Crônica de um vendedor de sangue</strong>, romance do escritor chinês <strong>Yu Hua</strong>,  que mostra como gradualmente seu protagonista utiliza a sua “energia”  para solucionar os problemas de sua família. Xu Sanguan – o nome faz  parecer que é seu destino viver de sangue – é um funcionário de uma  fábrica de seda de uma pequena cidade, casado com Xu Yulan, com quem  teve três filhos: Yile, Erle e Sanle. A família vive tranquilamente até  Xu Sanguan descobrir que seu primogênito é, na verdade, filho de outro  homem. A rejeição do filho até então favorito é imediata, mas como seu  verdadeiro pai não reconhece Yile, Xu Sanguan deve passar por cima dos  próprios ideais para conviver com o primogênito e aceitar que, apesar de  não terem o mesmo sangue, ser ainda assim seu pai.</p>
<p style="text-align: justify;">Yu Hua escreve apostando nos vícios de  linguagem, nas repetições de palavras, gestos, pensamentos e  comportamentos. Sua narrativa é simples e necessita de pouco para  abranger sentimentos e descobertas. É utilizando diálogos e narrando  ações tal qual elas acontecem que Yu Hua dá personalidade às suas  personagens. O tom do livro lembra as fábulas, que narram aquilo que  importa para a história, saltando no tempo para abordar os momentos mais  relevantes, ocultando aquilo que não contribui necessariamente para a  trama. O artifício que Yu Hua utiliza para dizer muito com poucas  palavras é eficiente e encantador. Assim, o ritmo de leitura é rápido,  sendo apreciado como se o leitor estivesse vendo e memorizando  rapidamente uma sequência de imagens que formam a trama, só que com  palavras, como se estivesse vendo os dramas de Xu Sanguan de dentro de  sua própria casa.</p>
<p style="text-align: justify;">As relações sociais da China no final de  1950 são bem exploradas pelo autor, pois são elas que levam o  protagonista a tomar a drástica decisão de vender seu próprio sangue com  frequência para garantir a sobrevivência da família. Yu Hua mostra o  desafio de Xu Sanguan em lutar contra seus ideias para manter sua  família unida na China comunista e sobreviver aos tempos de escassez e  conflitos trazidos pela industrialização comandada por Mao Tse-Tung. Sua  mulher e seus filhos sentem o peso dessas mudanças no cotidiano, no  trabalho, na mesa, no convívio com seus vizinhos, e apesar das atitudes  duras, Xu Sanguan demonstra bondade e solidariedade com seus familiares e  até com suas desavenças. E isso, aos poucos, consome não apenas seus  recursos financeiros, mas também sua própria vida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Crônica de um vendedor de sangue </strong>é  um livro que mostra toda a sensibilidade dos chineses diante da  tragédia familiar e também social. É a história de apenas uma família,  mas que resume o que toda a China enfrentou sob o comando de Mao  Tse-Tung, que aceitou todas as suas mudanças com obediência  inquestionável. O choque inicial da leitura que mostra uma cultura tão  fechada e diferente da que conhecemos aos poucos se transforma em uma  história encantadora de um personagem que dá tudo o que tem para manter  vivos aqueles que ama.</p>
<p style="text-align: center;">Conheça o catálogo da <strong>Companhia das Letras</strong></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.companhiadasletras.com.br/"><img class="aligncenter size-full wp-image-2400" title="Companhia das Letras" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2011/02/ciadasletras.gif" alt="" /></a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://rizzenhas.com/2012/01/17/resenha-cronica-de-um-vendedor-de-sangue-de-yu-hua/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Shantaram, de Gregory David Roberts</title>
		<link>http://rizzenhas.com/2012/01/09/resenha-shantaram-de-gregory-david-roberts/</link>
		<comments>http://rizzenhas.com/2012/01/09/resenha-shantaram-de-gregory-david-roberts/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 09 Jan 2012 21:04:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Izze Odelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Gregory David Roberts]]></category>
		<category><![CDATA[Intrínseca]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura australiana]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Shantaram]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://rizzenhas.com/?p=2745</guid>
		<description><![CDATA[Em 1978, Gregory David Roberts foi preso por assalto à mão armada na Austrália. Ao se divorciar, o até então escritor se rendeu completamente à heroína, perdeu o contato com sua filha, sua família, e passou a roubar para alimentar seu vício. Capturado, ele foi condenado a passar 19 anos dentro de uma prisão de segurança [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/01/Shantaram.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-2747" title="Shantaram" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/01/Shantaram-206x300.jpg" alt="" width="206" height="300" /></a>Em 1978, <strong>Gregory David Roberts</strong> foi preso por assalto à mão armada na Austrália. Ao se divorciar, o até então escritor se rendeu completamente à heroína, perdeu o contato com sua filha, sua família, e passou a roubar para alimentar seu vício. Capturado, ele foi condenado a passar 19 anos dentro de uma prisão de segurança máxima. Contudo, o horror das torturas sofridas dentro da cadeia e o desejo incontrolável pela liberdade levaram Roberts a um ato extremo: fugir. E em 1980, livre da prisão e um dos mais procurados foragidos da Austrália, ele desembarca em Bombaim, a cidade mais populosa do mundo. Muito mais do que uma chance de se esconder, se redimir de seus erros e começar uma nova vida, Gregory David Roberts encontrou na cidade a acolhida que nunca teve em nenhum outro lugar, e se sentiu em casa em meio ao caos da cidade indiana marcada pela pobreza, desigualdade e crimes.<span id="more-2745"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Em <strong>Shantaram</strong>, a vida do autor serve de base para esse romance que transita entre as camadas mais pobres de Bombaim até o luxo de Bollywood, entre a paz e solidariedade dos moradores de uma favela clandestina até a guerra no Afeganistão e a briga entre as gangues mafiosas da capital de Maharashtra. E entre o amor pela cidade, sua cultura e seu povo e o ódio e medo despertado quando sua liberdade fica novamente ameaçada. Recheado de personagens marcantes, o livro de mais de 900 páginas publicado pela editora <strong>Intrínseca</strong> aqui no Brasil revela a força desse protagonista para se reerguer nos momentos mais difíceis e encontrar lógica e bondade em meio à violência e a impunidade de Bombaim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Shantaram</strong> conta a história de perseverança de Lin – nome falso do protagonista para não ser reconhecido pelas autoridades do país. Roberts teve que escrever o livro por três vezes, pois os dois primeiros manuscritos foram destruídos pelos policiais ao ser preso novamente, 10 anos após a fuga, na Alemanha. Não bastou ter passado por experiências extremas tanto física quanto psicologicamente. Roberts tinha que compartilhá-las e retirar delas lições para a vida toda. Sem muita explicação, ele já mergulha o leitor na vida de Bombaim dando início à história de Lin a partir do momento em que ele chega à cidade, vindo da Nova Zelândia. A empatia com Bombaim é imediata: a visão das favelas construídas com materiais precários, um amontoado de gente vivendo aglomerada em meio à sujeira, não foi chocante o bastante para deixá-lo apreensivo quanto a escolha desse destino. Aos poucos, mais e mais características marcantes e assustadoras surgem na rotina de Lin, acompanhado por um guia local, Prabaker, com quem deu início a uma grande amizade logo no primeiro contato. Linchamentos, sujeira, tráfico de drogas, tudo o que é corrupto e ilegal não diminui em Lin o sentimento de familiaridade com a cultura, o povo e a filosofia indianos. Narrando em primeira pessoa, conforme Lin se envolve mais ainda com a cidade e a absorve, o leitor também a aceita em suas particularidades e estranhezas, e vai também descobrindo um pouco mais do passado do protagonista.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/01/gregorydavidroberts.jpg"><img class="size-medium wp-image-2746 alignright" title="gregorydavidroberts" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/01/gregorydavidroberts-234x300.jpg" alt="Se essa resenha não te convencer a ler Shantaram, a cara de mau do autor vai." width="187" height="240" /></a>Situações bizarras e hilárias passam, então, a parecerem normais aos olhos do leitor – como quando os moradores da favela onde Lin mora comentam a sua atividade intestinal baseados nas observações que faziam enquanto ele cuidava de suas necessidades ao ar livre. Essa falta de privacidade até então assustadora torna-se normal. Os costumes de Bombaim aos poucos são reconhecidos e apreciados, e por mais suja e desorganizada que a cidade parece ser – e é –, Roberts consegue passar para o livro de forma compreensiva as estranhas leis que regem o cotidiano dos indianos, muitas vezes estabelecidas por uma própria comunidade ou pelo crime organizado, e não pelo governo ou outra instituição legal. O respeito, a alegria, a solidariedade e o instinto de sobrevivência com um senso de justiça único é o que mantém Bombaim de pé, funcionando em meio ao caos.</p>
<p style="text-align: justify;">De morador de favela a seguidor preferido do maior líder da máfia de Bombaim – atuando no mercado negro de câmbio, passaportes falsos e contrabando de ouro –, Lin passa pelas situações mais divergentes. Montou um posto de saúde na favela e auxiliou muitos de seus moradores, trouxe ideias inovadoras para os membros da máfia, se envolveu com diretores de cinema, assassinos, prostitutas e pessoas da mais humilde classe sempre com a mesma dedicação e paixão, pois como ele mesmo define: <em>“A Índia é o coração. É o coração que nos une.”</em> Não importa religião, profissão, nacionalidade ou classe, Lin se sente conectado com todos através de seu coração e retribui cada ajuda que recebe.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre as passagens mais interessantes de <strong>Shantaram</strong> estão as conversas entre Lin e Abdul Khader Khan, o líder da máfia de Bombaim. Suas discussões tratavam de, principalmente, questões sobre o bem e o mal, uma reflexão constante de como conviver com suas atividades ilegais e como enxergar nelas a bondade, algo que contribui para a evolução da vida. E o protagonista não aceita sem discutir as ideias de seu chefe, mas curioso ou irritado, tentava encurralar Khaderbai em seus próprios argumentos, dando ao leitor material o bastante para concordar ou não com esses conceitos apresentados pelo líder. O livro pode parecer demasiado sentimental para muitos leitores em alguns momentos, com recorrentes descrições “bregas” – como descrever olhos de Karla, sua grande paixão, como “do verde das lagunas, onde a água rasa descansa sobre areia dourada” –, mas assim como as famosas novelas mexicanas são famosas pelo seu drama exagerado, a demonstração de afeto ou ódio é acentuada pela maneira sentimental dos indianos se expressarem, e dentro desse contexto elas acabam fazendo todo o sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">Se em <strong>Bombaim: cidade máxima</strong>, do jornalista Suketu Mehta – livro que até então mais me aproximou desse país –, os problemas da Índia e seu modo de viver são narrados à exaustão pelo autor, em <strong>Shantaram</strong> o foco está no povo que faz de Bombaim ser o que ela é: um lugar mergulhado em violência e injustiça, mas ainda assim amoroso, acolhedor e alegre, características fortes que se sustentam por mais que a destruição assole as vidas presentes nesse livro. É impossível não se apaixonar pelas personagens e pela cidade que adotou Lin e que Gregory David Roberts colocou nesse livro. E 900 páginas não são o bastante para dar conta de toda a história que o autor ainda tem para contar, já podemos esperar pela continuação que dará seguimento à vida tumultuada vida de Lin.</p>
<p style="text-align: center;">Conheça o catálogo da <strong>Intrínseca</strong></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.intrinseca.com.br/"><img class="aligncenter size-full wp-image-2400" title="Intrínseca" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2011/02/selointrinseca.jpg" alt="" /></a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://rizzenhas.com/2012/01/09/resenha-shantaram-de-gregory-david-roberts/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Peregrina de araque, de Mariana Kalil</title>
		<link>http://rizzenhas.com/2012/01/03/resenha-peregrina-de-araque-de-mariana-kalil/</link>
		<comments>http://rizzenhas.com/2012/01/03/resenha-peregrina-de-araque-de-mariana-kalil/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 03 Jan 2012 23:10:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Izze Odelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Dublinense]]></category>
		<category><![CDATA[literatura brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Mariana Kalil]]></category>
		<category><![CDATA[Peregrina de araque]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://rizzenhas.com/?p=2738</guid>
		<description><![CDATA[O nome, a capa, o subtítulo: tudo indicava que Peregrina de araque: uma jornada de fé e ataque de nervos no Oriente Médio é um daqueles tipos de livros no melhor estilo YA Books, só que nacional. Lembra aquelas histórias de mulheres decididas que embarcam em alguma viagem maluca para esquecer um desapontamento afetivo ou profissional [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/01/peregrina-de-araque.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-2739" title="peregrina-de-araque" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/01/peregrina-de-araque-e1325632060567.jpg" alt="" width="200" height="298" /></a>O nome, a capa, o subtítulo: tudo indicava que <strong>Peregrina de araque: uma jornada de fé e ataque de nervos no Oriente Médio</strong> é um daqueles tipos de livros no melhor estilo YA Books, só que nacional. Lembra aquelas histórias de mulheres decididas que embarcam em alguma viagem maluca para esquecer um desapontamento afetivo ou profissional e, no melhor estilo Sessão da Tarde, aprontam altas confusões. Depois de muitas situações absurdas e engraçadas, terminam em um momento de epifania, autoconhecimento ou qualquer outra coisa que “levante o astral”. O diário de viagem da jornalista gaúcha <strong>Mariana Kalil</strong>, publicado pela editora <strong>Dublinense</strong>, pode até ter muito disso. Contudo, ele não tem a pretensão de trazer importantes ensinamentos sobre a vida através de um romance água com açúcar. Mariana só quer mesmo contar como foi sua viagem, assim, de forma bem despretensiosa.<span id="more-2738"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Não, a autora não passou por nenhuma decepção amorosa ou algo do gênero para partir para o Oriente Médio. Jornalista da Zero Hora, foi a convite do jornal que ela topou partir para o Egito, Jordânia e Israel com mais 35 pessoas para fazer uma peregrinação religiosa em 15 dias. Sem procurar paz, conhecimento, Deus, revelações sobre a vida ou outras questões que inquietam as pessoas. Era para ela simplesmente ir e relatar sua viagem na companhia dos peregrinos. Puro trabalho. Mas o Oriente Médio, com todas as suas peculiaridades – a cultura, os conflitos, etc. – não podia deixar de marcar Mariana, e os e-mails diários enviados para a família em Porto Alegre como desabafo da estranha viagem se transformaram no livro <strong>Peregrina de araque</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante a leitura, uma das coisas que pensei em comentar sobre o livro é a visão um tanta ingênua e preconceituosa da jornalista para o que via logo na primeira etapa da viagem, em passagem pelo Cairo. A pobreza e sujeira da cidade surpreenderam negativamente Mariana que, em certo momento, se pergunta: onde estão os ricos? Aqui não tem nenhuma Padre Chagas? Uma Zara? O que pensei na hora foi “se você queria ir numa Padre Chagas, poderia ter continuado em Porto Alegre”. Mas lembrei da minha própria reação ao começar a ler o livro, de julgá-lo logo de cara como uma leitura não tão interessante, e deixei de lado essa reclamação – todos têm seus defeitos perdoáveis. De forma descontraída e objetiva, Mariana segue no relato de suas visitas a mosteiros, conventos, pontos sagrados, refazendo o caminho da santa família ao lado daqueles 35 peregrinos, idosos em sua maioria.</p>
<p style="text-align: justify;">Tanto quanto as visitas a pontos turísticos da região, a própria relação dela – uma religiosa, mas não praticante – com os devotos liderados por um frei e um padre, que a caminho das visitas rezavam missas, cantavam os cantos e orientavam os peregrinos com detalhes históricos – e religiosos – sobre tudo o que viam. E no meio disso está Mariana, contando sem medo ou vergonha tudo o que via – o comportamento de seus colegas de viagem, o chilique em cima de um camelo, o calor insuportável e a irritação em ter que servir de tradutora para pessoas que achavam um absurdo a população do Oriente Médio não falar português. Tudo de um jeito bem humorado, claro. O texto de Mariana, por mais rabugentas que sejam algumas de suas reclamações, esbanja simpatia.</p>
<p style="text-align: justify;">Claro que em um livro sobre peregrinação religiosa não poderia deixar de ter um pouco do citado autoconhecimento. Passar pelos lugares onde, segundo a Bíblia, Jesus passou não deixa de despertar certa emoção na autora, que transborda nos momentos mais inoportunos e a leva a se aconselhar também com os padres que lideram a turma de turistas. E, por mais incrível que pareça para um leitor pouco ligado em religião, é nesses momentos que o livro é melhor. Principalmente quando os próprios padres desfazem alguns mitos da Bíblia – a partilha dos pães, a anunciação da gravidez de Maria e a ressurreição de Lázaro – com interpretações mais lógicas e muito mais tocantes. Interpretações que, contrariando qualquer resquício de inteligência, os peregrinos negaram veementemente, preferindo a fantasia da leitura literal do livro sagrado. Como o próprio padre comenta com Mariana: <em>“O problema é que a maioria prefere acreditar em milagres e poucos colocam a teoria em prática”</em>. A teoria, nesse caso, é levar para a vida os bons exemplos de solidariedade e compaixão com o próximo, e não se preocupar apenas com seus próprios pecados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Peregrina de araque</strong> é um livro divertido, não existe pretensão de ser obra literária e nem foi com esse objetivo que ele nasceu. É apenas um registro de um momento na vida da autora que, sim, é interessante o bastante para ser compartilhado com quem se dispuser a ler. E a leitura, com a simpatia de Mariana Kalil, garante bons momentos de descontração.</p>
<p style="text-align: center;">Conheça o catálogo da <strong>Dublinense</strong></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.dublinense.com.br/"><img class="aligncenter size-full wp-image-2400" title="Dublinense" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2011/02/logodublinense.gif" alt="" /></a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://rizzenhas.com/2012/01/03/resenha-peregrina-de-araque-de-mariana-kalil/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Enciclopédia dos quadrinhos, de Goida e André Kleinert</title>
		<link>http://rizzenhas.com/2012/01/02/resenha-enciclopedia-dos-quadrinhos-de-goida-e-andre-kleinert/</link>
		<comments>http://rizzenhas.com/2012/01/02/resenha-enciclopedia-dos-quadrinhos-de-goida-e-andre-kleinert/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 02 Jan 2012 15:10:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Izze Odelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[André Kleinert]]></category>
		<category><![CDATA[Enciclopédia dos quadrinhos]]></category>
		<category><![CDATA[Goida]]></category>
		<category><![CDATA[L&PM]]></category>
		<category><![CDATA[Quadrinhos]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://rizzenhas.com/?p=2733</guid>
		<description><![CDATA[Uma coisa difícil de entender no mundo dos quadrinhos é como muita gente ainda os considera “coisa de criança”. Para mim, desde o começo, gibis, HQ’s, graphic novels, enfim, álbuns e tirinhas que num olhar superficial são destinados às crianças servem para qualquer idade. Se eu pegar agora um dos gibis da Turma da Mônica [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/01/enciclopedia-dos-quadrinhos.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-2734" title="enciclopedia-dos-quadrinhos" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2012/01/enciclopedia-dos-quadrinhos-e1325516938460.jpg" alt="" width="200" height="283" /></a>Uma coisa difícil de entender no mundo  dos quadrinhos é como muita gente ainda os considera “coisa de criança”.  Para mim, desde o começo, gibis, HQ’s, graphic novels, enfim, álbuns e  tirinhas que num olhar superficial são destinados às crianças servem  para qualquer idade. Se eu pegar agora um dos gibis da <strong>Turma da Mônica</strong> ou do <strong>Pato Donald</strong> que li quando pequena, vou me divertir tanto quanto naquela época. Assim como <strong>Peanuts</strong> é uma das minhas tiras favoritas desde a infância, e que parece trazer  muito mais significados para os adultos que para as crianças com suas  ironias e reflexões sobre a vida. O mesmo para <strong>Mafalda </strong>e muitas outras histórias que fizeram a infância de muita gente e ainda são admirados por eles, independente da idade. <span id="more-2733"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Há muito por aí para provar o contrário, de que só porque é desenho, é infantil. Olhe só <strong>Maus</strong>, de <strong>Art Spiegelman</strong>. As HQ’s reportagem de <strong>Joe Sacco </strong>com  sua cobertura de conflitos. Os próprios super-herois que cresceram  junto com seu público e hoje são muito mais voltados para adultos que  para crianças, como no seu início. Chega até a ser cansativo repetir que  “quadrinho é coisa séria” porque isso é praticamente uma obviedade. É  uma arte que já se espalhou tanto que precisa de uma, duas, muitas  enciclopédias para reunir os principais nomes que fizeram e fazem  história. É aí que nos deparamos com <strong>Enciclopédia dos quadrinhos</strong>, que surgiu primeiro em 1990 organizada por <strong>Goida</strong>, e agora volta em uma edição atualizada, revisada e ampliada com a participação de <strong>André Kleinert</strong> e<strong> </strong>publicada também pela <strong>L&amp;PM</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Como os próprios autores explicam na  introdução dessa enciclopédia, a intenção não foi reunir todos os nomes  dos quadrinhos do mundo todo, mas sim os mais significativos – e com  grande destaque para desenhistas, argumentistas e roteiristas nacionais.  Ou seja, nem todos os nomes da área aparecerão nessa enciclopédia,  tanto alguns novos que surgem por aí como outros mais conhecidos, até.  Para isso, o número de páginas desse livro – que ultrapassa as 500 –  deveria ser muito maior, sem falar em mais volumes. Só de ilustradores e  autores de tirinhas na internet existe um número infindável no Brasil.  Imagina só recolher essas informações do mundo todo.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de dar início aos verbetes dos  principais nomes dos quadrinhos mundiais e nacionais, Goida e Kleinert  fazem o leitor percorrer uma breve história das HQ’s, relatando seu  início lá no final do século XIX, despontando nos jornais  norte-americanos – como meio de atrair mais leitores imigrantes –,  passando pela era de ouro, período de guerra, censuras e moralismo que  limitaram a produção e publicação de histórias em quadrinhos. Essa  pequena contextualização dos quadrinhos na História e no mercado  editorial mostra que, além de importantes para a formação de leitores  que cresceram com as aventuras dos super-herois, foi também aos poucos  ficando mais madura até virarem fetiche de adultos. O recente boom no  próprio mercado brasileiro, com cada vez mais autores sendo publicados  por editoras que antes não atuavam nesse segmento, também é comentado no  livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Passando para os verbetes, Goida e  Kleinert fazem um grande resumo da história dos quadrinhos e seus  autores. Em cada verbete, eles relacionam as principais obras desses  nomes, resumem as maiores e mais conhecidas publicações (incluindo  edições brasileiras) e também fazem um pequeno relato biográfico de cada  desenhista, roteirista, argumentista e até editores – nomes como  Roberto Marinho, falecido dono da Globo, aparecem no livro como figuras  importantes na publicação de HQ’s. O mais interessante é notar o grande  número de autores brasileiros listados na obra, o que Goida confessou  não ter dado tanta atenção na primeira edição da enciclopédia.</p>
<p style="text-align: justify;">Os amantes dos quadrinhos encontram os  nomes que fizeram história com as revistas de super-herois, as tiras  diárias ou semanais em jornais, em revistas coletivas com as mais  diversas abordagens e públicos e, claro, as graphic novels que hoje  vivem um bom momento no mercado editorial. E se nomes como <strong>Roberto Marinho</strong> – que não desenhava nem escrevia – são listados, <strong>Walt Disney</strong> e <strong>Hanna e Barbera</strong> também merecem seu espaço – apesar de criadores de personagens como <strong>Mickey Mouse</strong>, <strong>Tom &amp; Jerry</strong> e outros, nunca desenharam uma tira sequer.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar do grande número de autores presentes na <strong>Enciclopédia dos quadrinhos</strong>,  senti falta de mais nomes dos famosos mangás, as HQ’s japonesas. Claro  que os principais estão aqui, como os roteiristas e desenhistas de <strong>Lobo solitário</strong>, <strong>Dragon Ball </strong>e <strong>Akira</strong>. Mas alguns nomes que fazem sucesso entre um público mais jovem – alguém falou nas meninas da <strong>CLAMP</strong>? – fazem falta.</p>
<p style="text-align: justify;">Para adoradores das HQ’s, a <strong>Enciclopédia dos quadrinhos </strong>é  mais que um grande presente. Com o melhor e mais cultuado da “nona  arte”, Goida e Kleinert fizeram um bom trabalho em reunir as principais  referências da arte sequencial. Sem falar que é um exemplar que reúne o  que foi produzido de maior e melhor, tanto no mundo como no Brasil, o  que já serve como um guia de leitura infalível para quem quer se  aprofundar ainda mais no que as HQ’s têm a oferecer.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://rizzenhas.com/2012/01/02/resenha-enciclopedia-dos-quadrinhos-de-goida-e-andre-kleinert/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>As melhores leituras de 2011, ou como é difícil escolher um só livro</title>
		<link>http://rizzenhas.com/2011/12/23/as-melhores-leituras-de-2011-ou-como-e-dificil-escolher-um-so-livro/</link>
		<comments>http://rizzenhas.com/2011/12/23/as-melhores-leituras-de-2011-ou-como-e-dificil-escolher-um-so-livro/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 23 Dec 2011 15:44:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Izze Odelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Aleatoriedades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[leitura]]></category>
		<category><![CDATA[Melhores do ano]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://rizzenhas.com/?p=2711</guid>
		<description><![CDATA[Fui começar a pensar nas melhores leituras do ano para o post especial de toda a equipe do Meia Palavra. E toda vez que pensava em um título, eu dizia: “não, esse fulano já escolheu. Mas também tem esse bom. E esse. E esse outro. E mais esse”. Ah, impossível. Quando fui finalmente escrever a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2011/12/melhores.png"><img class="alignleft size-full wp-image-2714" title="melhores" src="http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2011/12/melhores.png" alt="" width="200" height="300" /></a>Fui começar a pensar nas melhores leituras do ano para o post especial de toda a equipe do Meia Palavra. E toda vez que pensava em um título, eu dizia: “não, esse fulano já escolheu. Mas também tem esse bom. E esse. E esse outro. E mais esse”. Ah, impossível. Quando fui finalmente escrever a minha parte de melhor leitura, abri essa <a href="http://rizzenhas.com/lista-de-livros/">lista de livros</a> lidos que mantenho aqui no blog e, enquanto olhava, ia clicando nos que mais me agradaram usando o seguinte critério: se viesse alguma boa lembrança dessa leitura, ele seria escolhido. E isso aconteceu com nada mais, nada menos, que 20 livros. Sim, 20. E não consegui diminuir essa lista não querendo ser injusta com os livros e comigo mesma.<span id="more-2711"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Então ao invés de escolher um livro só e fazer um comentário sobre ele, só vou colocar a lista desses 20. Todos estão aqui por serem boas leituras, reveladoras, reflexivas, engraçadas, tristes, desafiadoras, enfim, livros que despertaram alguma coisa em mim e, por isso, não podem sair dessa lista.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/07/18/resenha-entretanto-foi-assim-que-aconteceu-de-christian-carvalho-cruz/">Entretanto, foi assim que aconteceu</a></strong>, de  Christian Carvalho Cruz</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/07/24/resenha-equador-de-miguel-sousa-tavares/">Equador</a></strong>, de Miguel Sousa Tavares</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/07/27/resenha-todos-os-fogos-o-fogo-de-julio-cortazar/">Todos os fogos o fogo</a></strong>, de Julio Cortázar</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/08/03/resenha-silenciosa-algazarra-de-ana-maria-machado/">Silenciosa algazarra</a></strong>, de Ana Maria Machado</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/08/05/resenha-24-letras-por-segundo/">24 letras por segundo</a></strong>, organizado por Rodrigo Rosp</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/08/15/resenha-o-homem-despedacado-degustavo-melo-czekster/">O homem despedaçad</a>o</strong>, de Gustavo Melo Czekster</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/08/25/resenha-memorias-do-sobrinho-de-meu-tio-de-joaquim-manuel-de-macedo/">Memórias do sobrinho de meu tio</a></strong>, de Joaquim Manuel de Macedo</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/10/27/resenha-os-detetives-selvagens-de-roberto-bolano/">Os detetives selvagens</a></strong>, de Roberto Bolaño</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/11/23/resenha-travessuras-da-menina-ma-de-mario-vargas-llosa/">Travessuras da menina má</a></strong>, de Mario Vargas Llosa</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/11/17/resenha-conversas-com-scorsese-richard-schickel/">Conversas com Scorsese</a></strong>, de Richard Schickel</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/12/08/resenha-a-felicidade-e-facil-de-edney-silvestre/">A felicidade é fácil</a>, </strong>de Edney Silvestre</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/12/06/resenha-asterios-polyp-de-david-mazzucchelli/">Asterios Polyp</a></strong>, de David Mazzucchelli</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/12/14/resenha-14-contos-de-kenzaburo-oe/">14 contos de Kenzaburo Oe</a></strong>, de Kenzaburo Oe</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/01/10/resenha-so-garotos-de-patti-smith/">Só garotos</a></strong>, de Patti Smith</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/01/13/resenha-quero-ser-reginaldo-pujol-filho/">Quero ser Reginaldo Pujol Filho</a></strong>, de Reginaldo Pujol Filho</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/02/02/resenha-me-roubaram-uns-dias-contados-de-rodrigo-de-souza-leao-no-amalgama/">Me roubaram uns dias contados</a></strong>, de Rodrigo de Souza Leão</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/03/10/resenha-maus-de-art-spiegelman/">Maus</a></strong>, de Art Spiegelman</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/03/17/resenha-as-entrevistas-da-paris-review/">As entrevistas da Paris Review</a></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/03/28/resenhahonra-teu-pai-de-gay-talese/">Honra teu pai</a></strong>, de Gay Talese</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/07/04/resenha-bombaim-cidade-maxima-de-suketu-mehta/">Bombaim: cidade máxima</a></strong>, de Suketo Mehta</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">E é isso. 2011 foi um ano ótimo em várias coisas, uma delas foi principalmente o grande número de boas leituras. Que no ano que vem essa lista seja ainda maior. Mas peraí, ainda tem um bonus track. Sim! Na verdade é um livro de 2010, que terminei no dia 31, se não me engano, ou seja, depois de eu ter feito a lista do ano passado. E esse livro é <strong><a href="http://rizzenhas.com/2011/01/06/resenha-hitler-de-ian-kershaw/">Hitler</a></strong>, de Ian Kershaw.</p>
<p style="text-align: justify;">Tá, agora parei. Feliz Natal e bom ano novo pra todo mundo. E obrigada.</p>
<p style="text-align: justify;">Ps.: É claro que acabei escolhendo um livro só para o post do Meia Palavra, era obrigação! Então não deixem de olhar as Melhores Leituras de 2011 lá na semana que vem.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://rizzenhas.com/2011/12/23/as-melhores-leituras-de-2011-ou-como-e-dificil-escolher-um-so-livro/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

